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Quarta-feira, Agosto 25, 2004


As chagas de Sofonias

Apreciável relação de sadismo parece haver entre o destino e algumas pobres almas mundanas. Tomemos o caso de Sofonias.
Rapaz de vinte e tantos anos, quando criança fora brindado com o belo nome bíblico que remontava a memória do velho profeta, filho de Ezequias.
A devoção de seus pais na escolha de suas graças nunca fora entanto levada a serio pelas pessoas, sobretudo durante os amargos anos de Sofonias nos bancos escolares.
Reportanto-se a Freud, era bem provável que se achasse nesse trauma de infância uma das razões para o comportamento recolhido de Sofonias. Nunca fora um grande exemplo de ânimo. Preferia manter-se em silêncio na maior parte do tempo e não se tinha notícia de qualquer expressão de exaltação ou palavra de grande efeito proferida por sua pessoa.
Seus dias eram assim: acordava cedo, trabalhava o dia todo e voltava para casa no fim da tarde. Concluída a faculdade de Língua Inglesa, não achara emprego onde desse uso a seu diploma. Esgueirava-se assim por sobre seus papéis do emprego que nunca o proporcionara muito prazer.
Remediando a descrença na vida, começara nos últimos meses um namoro que lhe dera boa razão para sobreviver a seus dias monótonos.
Incluiu desde então em seu itinerário uma indefectível e pontual passada na casa de sua dama, todas as noites, às oito. Estava bem por isso. Até sorria e contava piadinhas infames durante o expediente. A vida parecia ter entrado nos eixos.
Fora surpreendido então por um exame médico, entregue em mãos pelo neurologista de sotaque espanhol, ao qual havia se queixado semanas antes de uma aguda dor de cabeça. O diagnóstico o deixou perplexo. Instalara-se em si um pequeno tumor cerebral.
- No debes quedarse - insistia o médico, enquanto Sofonias, sentado na poltrona, olhava para o nada, pensando em como daria a notícias a seus pais.
Três meses depois, trancado no quarto, Sofonias, ao fone de ouvido, escuta o Cat Stevens que ganhara da namorada, dias antes de ela a abandonar. Olhando a prateleira, enxerga de longe a Bíblia de capa preta que passou anos a ler, em obediência à sua mãe. E com certo ar de rancor, entoa para si, sem sequer ouvir sua própria voz.
- E castigarei os homens que se espessam como a borra do vinho, que dizem no seu coração: O Senhor não faz o bem nem faz o mal.
Retificando, pois, apreciável é a relação de sadismo que há entre o destino e algumas pobres almas mundanas.

KEMIS VIANA DA SILVA - 2:48 PM

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Quarta-feira, Agosto 18, 2004


Lés Miserábles

O que vem a ser um miserável?
O miserável pode ser assim entitulado, tomando-se como referência sua condição financeira, os bens que pertence (ou que não pertence), as condições do lugar onde mora ou como tem se alimentado.
Mas engana-se aquele que restringe sua concepção de miserabilidade tomando por base tão somente os aspectos financeiros.
O miserável está em todo lugar, inclusive naqueles onde menos se imagina. Não se encontram miseráveis apenas debaixo das pontes.
Eles estão em todas as partes. Bem escondidos debaixo de um sorriso acanhado, de um rosto abatido.
Relatos históricos contam que, nos anos negros do apogeu da Revolução Industrial, quando as grandes cidades européias acumulavam à beira de suas ruas
amontoados de pobres miseráveis mortos de fome e de frio, tal era a privação, que houve cenas lamentáveis em quem alguns comiam as próprias mãos.
Excluindo-se, no entanto, o aspecto material, a necessidade de afeição também pode ser responsável por uma situação de miséria.
Por isso, não é menos miserável aquele que, a despeito de sua riqueza, não tem o direito a desfrutar do carinho e da atenção do próximo.
Não sejamos, portanto, responsáveis nem pelo primeiro, nem pelo segundo tipo de miséria.
Por que eu escrevi isso? Bem, não tenho a menor idéia.


KEMIS VIANA DA SILVA - 1:27 PM

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Sábado, Agosto 14, 2004


Galeria de Arte

Desculpe-me ser sensacionalista. Afinal a TV está cheia deles e todos batem palmas.
Perdoem-me ser eu estragar seus dias com isso, mas eu não posso me calar.
A todos aqueles que não se interessam pelo assunto por achar se tratar de coisa para intelectolóide, de nerd.
A todos que, por preguiça ou desleixo, preferem dizer "o que o Iraque tem a ver com a minha vida?"
A todas as pessoas que admiram as cinqüenta estrelas da bandeira americana como se adorassem a um deus.
A todos estes vai aqui o meu presente para este sábado de Olimpíadas. Uma seqüência de lindas imagens das vítimas da
invasão americana no Iraque e de seus maravilhosos e tecnológicos mísseis de alta precisão.
Um grande abraço, excelentíssimo sr. George W. Bush, "presidente" dos Estados Unidos da América. As urnas o esperam.
Bom sábado a todos.


(C) Cenas extraídas do documentário Fahrenheit 9/11, de Michael Moore

KEMIS VIANA DA SILVA - 4:24 PM

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Quarta-feira, Agosto 11, 2004


Vou dizer, viu. Se há alguém mais queimado do que eu, ainda não conheci.
Quando eu resolvo ser eu sempre dá na mesma, eu decepciono.
Francamente, para quê que eu fui feito, Senhor?

KEMIS VIANA DA SILVA - 3:10 AM

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Segunda-feira, Agosto 09, 2004


Correio procê...

De: kemisviana@yahoo.com.br
Para:------.-------@yahoo.com.br

Saudações, primo Chagas.

Como de hábito, te escrevo para dar-lhe um bizu do que anda acontecendo aqui pela nossa terrinha.
Neste domingo, tirei proveito da virada que o tempo do Acre tem sofrido e resolvi dar uma volta pela cidade para curtir o climazinho frio que se apoderou de Rio Branco.
Acabei de chegar de uma ópera. Acredite.
Não sei se é do seu conhecimento, mas dando continuidade ao trabalho de resgate histórico das raízes acreanas, o governo conseguiu um patrocínio da Petrobrás para a montagem de uma ópera em 3 atos, com um enredo bem a rigor.
Na verdade à ópera em si, eu irei amanhã, no Teatrão. Hoje era apenas uma apresentação da orquestra que compõe o espetáculo.
Aquiry - A luta de um povo, conta uma história ambientada no típico seringal do apogeu da borracha, onde a filha de um seringalista e o filho de um seringueiro de apaixonam, num verdadeiro affair a la Romeu e Julieta da floresta.
A qualidade do espetáculo não deixa a desejar, apesar de eu não ser um exímio conhecedor de eventos de música erudita, já que aqui não existem muitos.
Não preciso dizer que no desenrolar da trama, há uma exaltação da chamada Revolução Acreana que, você bem sabe, tem um quê de romantismo e de beleza, mas que de revolução em si não teve nada ou quase nada.
Mas a grande questão é saber até que ponto essa exaltação baseada em fatos muitos distorcidos pode ser benéfica ou prejudicial à nossa consciência enquanto acreanos.
A miscelânea que junta ficção artística com realidade pode ter um grandioso valor. Eu mesmo acho fantástico dar ao povo do Acre o direito de saber como é bonito o som dos violinos e dos celos de um concerto, ou mesmo o quanto é lindo um solo de uma diva numa ópera.
Mas que tal basear todas essas expressões artísticas em coisas mais recorrentes à nossa D. Mariquinha que vende mingau de banana e tapioca no Mercado Velho?
Dica de leitura vem da Folha de S. Paulo, que tem divulgado uns diários de viagem do grupo de teatro Vertigem. Não sei se você tem lido. Se não, dá uma clicada para ver o que eles dizem do Acre.
http://www1.folha.uol.com.br/folha/especial/2004/teatrodavertigem/diario_de_viagem.shtml

Abração, Mandarim!

Kemis Viana

KEMIS VIANA DA SILVA - 12:44 AM

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Quinta-feira, Agosto 05, 2004


Tenha dó

A fase é de silêncio. Não quero falar para não chocar. Não quero nem lembrar para não magoar. Eu perdi tudo o que pretendia ter um dia na vida e sou obrigado a engolir a seco o gosto amargo da decepção. Derrota é a palavra mais adequada. Ela insiste em fazer parte da minha vida de cachorro. Eu sou o maior fracasso já produzido na face da Terra. Nunca havia sentido tanta pena de mim antes como tenho sentido esses dias. Cara, parece que tudo conspira para fazer eu me sentir uma anti-matéria.
Eu não sou feito da mesma substância que os humanos, que as pessoas normais. Com efeito, eu nem sou uma pessoa e nem sou normal.
Eu nunca tinha escrito linhas tão desprovidas de sentido como estas. É a derrocada!