Domingo, Outubro 31, 2004


Muito trovão e pouca chuva

Essa semana foi do cacete. Me fez chegar a uma conclusão. Não diria nem chegar a uma conclusão, e sim confirmá-la mais veementemente ainda.
Essa coisa de funcionário público é para quem nasceu dotado de um saco escrotal com elasticidade a acima do natural.
Agora, aqui sentado à frente de meu micro e com um fim de semana prolongado que me permitirá retornar àquele inferno só na quarta-feira, tento acalmar meus nervos dos traumas ocorridos nos últimos cinco dias.
As coisas na repartição parecem estar tomadas por um maldito poltergeist que tem deixado tudo em pane, em descontrole total.
As coisas vinham mais ou menos em ordem, até acontecer na empresa uma mudança decorrente de "forças estranhas".
De repente, tudo virou de ponta-cabeça. Relatórios às toneladas, planilhas, atividades adicionais. Senhor!
E todo o desejo de abandonar aquele emprego miserável ficou mais forte ainda. Por vezes, senti vontade de correr para o banheiro, me trancar e chorar, tal era o sentimento de opressão. Sinto uma carga enorme sobre meus ombros.
Então vem e me ocorre a pergunta que há tempos não me abandona. Será que o conhecimento que eu tenho não pode me proporcionar uma vida mais decente?
Ou será que finalmente está confirmada a minha teoria de que, nos dias de hoje, o grande segredo para o sucesso é ser um completo idiota?
As pessoas mais satisfeitas com a vida que eu conheço são perfeitos babacas de carteirinha, e não estão nem um pouco incomodados com isso.
Já há alguns dias, tenho recebidos elogios e ouvido de várias pessoas que visitam meu blog, e de outras poucas que têm a chance de me conhecer melhor, que sou um cara muito cabeça, inteligente, que escrevo bem, etc.
Fico muito grato e não posso negar que isso faz um certo bem ao ego de vez em quando. No entanto, devo admitir que não recebo isso como grande mérito. Não para a minha vida.
Não creio que o fato de assumir uma postura de pessoa preocupada com as duras realidades dessa vida, ou de gostar de ler bons livros, de ver bons filmes e de escrever meus pensamentos seja algo que ajude em grande coisa na minha tortuosa luta para ser feliz, ou pelo menos uma pessoa conformada.
Nesse exato momento, por exemplo, todas as pessoas que conheço estão namorando ou transando com alguém. Normais que são, irão começar a semana de cabeça fria, vendo ao longe um futuro que guarda algo de promissor.
Enquanto isso, eu fico aqui, saboreando o love storie com meu teclado surrado. E para a semana que chega, continuarei andando de um lado para o outro com minha indefectível nuvenzinha negra de mal-humor e medo rondando a parte superior de minha moleira.
Dizem que todo buraco tem um fundo. Se tem, eu ainda estou em plena queda.

KEMIS VIANA DA SILVA - 1:42 AM

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Domingo, Outubro 24, 2004


Coisa que gosto é poder partir sem ter planos...

Certa vez, ouvi que aquele que pretende partir de verdade não deixa mensagens nem perde tempo com insinuações. Simplesmente vai.

O francês Êmille Durkheim produziu, em meados de 1897, um ensaio que, por mais saturado que pareça estar para os dias atuais, tornou-se material obrigatório nos cursos universitários de sociologia. "Le Suicide" classifica em três os tipos de suicídios. O egoísta, o altruísta e o anômico.
O suicida egoísta seria aquele que, ao considerar sua própria personalidade como algo acima da personalidade coletiva, preferiria morrer a ter que sucumbir à consciência da sociedade onde vive. O altruísta, ao contrário, abre mão de si próprio e de sua felicidade para assumir uma postura abnegada que tende ao sufrágio em nome da causa coletiva. Por fim, o anômico é o suicida que não consegue aceitar a si próprio como ser resignado e limitado que é diante das exigências cada dia maiores de uma sociedade competitiva.
Para os três casos, Durkheim afirmara não haver outra solução efetiva senão uma que partisse da iniciativa do Estado. Isso mesmo. O Estado seria, para ele, o responsável direto pela existência e, consequentemente, pela própria erradicação do suicídio.
Organizando as idéias, eu uso a concepção de Durkheim para dizer: concordo e discordo.
Concordo que muitas vezes o sentimento de opressão presente em algumas pessoas é resultado de um estado de coisas imposto pelo mundo onde vivemos. Precisamos nos vestir, nos comportar, falar e se relacionar segundo os padrões e normas ocidentais, e se querem saber como se sente aquele que se considera um estranho no ninho, tenham a experiência de conversar com aquele típico colegial dark que se veste de preto e que pouco se lixa para a própria aparência. Aquilo passa com o tempo, mas enquanto dura é um bom exemplo.
Discordo de Durkheim, no entanto, a partir do momento que considero a existência de disparidades naturalmente inerentes à consciência humana. Afinal, nunca pode-se deixar de levar em consideração a existência o improvável, o desvio de padrão.
Lembro de uma cena do filme Ken Park, onde um garoto desliza calmamente em seu skate até subir na plataforma onde, com igual tranqüilidade, saca uma arma e atira contra a própria cabeça.
Há situações em que, rodeado de circunstâncias favoráveis e aparentemente positivas, a pessoa tende a sentir seu coração apertado e oprimido, e isso é menos incomum do que parece ser.
Folheando um livro de uma amiga enfermeira, encontrei um diagnóstico na letra "A". Angústia espiritual. E declaro que as páginas pareciam falar mais de mim do que do geral. E aquele diagnóstico pouco tinha a ver com situação financeira, familiar ou qualquer fator externo que fosse. Ou seja, os distúrbios não previstos devem ser considerados.
Quanto ao primeiro parágrafo, não foi nada. Só mais um pensamento aleatório que resolvi expressar e com o qual Durkheim, talvez por falta de tempo, não se preocupou em atentar.

KEMIS VIANA DA SILVA - 8:31 PM

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Terça-feira, Outubro 19, 2004


Revirando os meus arquivos, encontrei esse achado.
Engraçado como a letra é elucidante...

Zé Ninguém
Biquini Cavadão

Quem foi que disse que amar é sofrer?
Quem foi que disse que Deus é brasileiro,
Que existe ordem e progresso,
Enquanto a zona corre solta no congresso?
Quem foi que disse que a justiça
Tarda mas não falha?
Que se eu não for um bom menino, Deus vai castigar!

Os dias passam lentos
Aos meses seguem os aumentos
Cada dia eu levo um tiro
Que sai pela culatra
Eu não sou ministro, eu não sou magnata

Eu sou do povo, eu sou um Zé Ninguém
Aqui embaixo, as leis são diferentes

Quem foi que disse que os homens nascem iguais?
Quem foi que disse que dinheiro não traz felicidade
Se tudo aqui acaba em samba?
(no país da corda bamba, querem me derrubar!!)
Quem foi que disse que os homens não podem chorar?
Quem foi que disse que a vida começa aos quarenta?
A minha acabou faz tempo,
Agora entendo por que ....

Cada dia eu levo um tiro
Que sai pela culatra
Eu não sou ministro, eu não sou magnata

Eu sou do povo, eu sou um Zé Ninguém
Aqui embaixo, as leis são diferentes

KEMIS VIANA DA SILVA - 2:57 PM

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Sexta-feira, Outubro 15, 2004


Don't let me down

Só para não perder o costume, vim reclamar da vida.
Do alto de minha insanidade e inspirado que ando com minha temporária volta ao convívio no meio acadêmico e o contato com os assuntos de informática, não poderia deixar de dar notação à analogia que me ocorreu esses dias ao relacionar ela, a vida, com a produção de softwares.
É estranho, mas explico.
Os bons livros de desenvolvimento de softwares orientam para que, passados os vários estágios de sua construção, seja dada a manutenção no sistema constantemente. Ou seja, não se pode instalar o software e sair correndo.
E parece ser isso o que acontece com a vida.
Acho que o programador sumiu. Instalou o programa, cheio de bugs, e desapareceu.
Sei que não é uma das coisas mais sensatas se pensar deste modo, mas lamentavelmente, este é o meu modo, irônico por sinal, de brindar à vida mais sem graça que já se pôs na Terra. Às vezes eu paro e penso no que eu ando fazendo de bom para o mundo e, principalmente, para mim nessa vida. Viver sem objetivo é padecer num labirinto. É pedalar sem ter para onde, é saborear um sorvete com zero bolas. E a despeito de todas as minhas razões, ainda sou obrigado a ouvir os lugares-comuns de hábito, me chamando de pessimista, de descrente e de mais uma série de adjetivos muito pouco agradáveis, mas que com o passar dos anos foram começando a me soar como elogios.
A sentença é muito elementar: causa e efeito. Causa e efeito, cacete!
Se eu sinto fome, eu como. Se alguém pisa no meu pé, eu chamo de filho da puta. Se a bola entra, eu grito gol! Se o juiz anula, eu mais uma vez chamo de filho da puta.
Mas e se eu me sinto triste? E se as coisas na minha vida não se acertam? Vou sair pela rua soltando confetes e dizendo: A vida é bela!?
Isso sim não nada seria racional.
Eu juro que queria enxergar ao longe o melhor dos futuros, mas não consigo. Esse quebra-cabeça não se encaixa.
Por isso eu apelo aos meus amigos, ao Mestre dos Magos, ao Kofie Anan, ao Greenpeace, a quem seja.
Dêem-me um sentido para seguir em frente. Não me deixem cair em tentação e livrem-me do mal.

KEMIS VIANA DA SILVA - 3:10 AM

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Domingo, Outubro 10, 2004


Todo carnaval tem seu fim...

Todo dia um ninguém José acorda já deitado
Todo dia, ainda de pé, o Zé dorme acordado
Todo dia o dia não quer raiar o sol do dia
Toda trilha é andada com fé de quem crê no ditado
De que o dia insiste em nascer
Mas o dia insiste em nascer pra ver deitar o novo...

Toda rosa é rosa por que assim ela é chamada
Toda bossa é nova e você não liga se é usada
Todo o carnaval tem seu fim
Todo o carnaval tem seu fim
É o fim
É o fim

Deixa eu brincar de ser feliz, deixa eu pintar o meu nariz
Deixa eu brincar de ser feliz, deixa eu pintar o meu nariz

Toda banda tem um tarol, quem sabe eu não toco
Todo samba tem um refrão pra levantar o bloco
Toda escolha é feita por quem acorda já deitado
Toda folha elege um alguém que mora logo ao lado
E pinta o estandarte de azul
E põe suas estrelas no azul
-"Pra que mudar?"

Deixa eu brincar de ser feliz, deixa eu pintar o meu nariz !
Deixa eu brincar de ser feliz, deixa eu pintar o meu nariz !

KEMIS VIANA DA SILVA - 5:24 PM

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Domingo, Outubro 03, 2004


Tênue linha que divide a teoria da prática

Artigo I - Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade.
Artigo II - Toda pessoa tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidas nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição.
Não será tampouco feita qualquer distinção fundada na condição política, jurídica ou internacional do país ou território a que pertença uma pessoa, quer se trate de um território independente, sob tutela, sem governo próprio, quer sujeito a qualquer outra limitação de soberania.
Artigo III - Toda pessoa tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.


Trechos retirados da Declaração Universal dos Direitos Humanos


Beslan, Rússia, 3 de setembro de 2004. 200 criancas são mortas em sua escola após um ataque de terroristas separatistas árabes e chechenos.