Sábado, Novembro 27, 2004


Eu amo mais você do que a mim

Estive pensando na explicação mais plausível que eu conseguiria dar caso alguém um dia me perguntasse qual a razão do meu fracasso no amor.
Entre tantos outros, elegi como argumento mais forte o fato de não saber amar direito.
Tolo que sou, decidi-me por ser um romântico incorrigível que insiste em prezar pelos valores que, nos dias de hoje, são abominados pela multidão.
Os "sentimentalmente ativos" da geração digital não estão nem um pouco preocupados com os termos respeito, cumplicidade, dedicação, fidelidade, amor...
Tragicamente, me habituei a me ver cercado pela sombria e desoladora sensação de um sentimento não correspondido e resultante da estúpida mania de gostar como se costumava gostar antes. Olhando, apreciando e imaginando o quanto uma pessoa pode se apoderar do seu direito de se sentir feliz.
Só desejaria aos meus piores inimigos a sensação de se sentir negado ou ignorado.
Conhecer a impossibilidade da concretização de uma paixão é uma experiência comparável apenas ao medo que se sente ao estar a bordo de uma aeronave em plena queda. Aterrorizante.
Céus! Onde andará a fórmula alquimista que revela a maneira de não sofrer tanto assim nos assuntos do coração?
Andei olhando ao redor e percebi que, apesar de sempre ter me achado a pessoa mais massacrada que existe nesse assunto, há uma serie de pessoas que conheço tomando remédios contra depressão e freqüentando consultórios de psiquiatria para resolver seus traumas, quase sempre relacionados a problemas de baixa auto-estima e crises de identidade.
Eu, pessoalmente, já abdiquei da Ciência na tentativa de sanar minha dor. Pois, assim como Woody Allen disse certa vez, no último dia que fui à uma sessão de análise, levantei da cadeira, apertei a mão da doutora e disse: "Cheque-mate! Você venceu."
Meus ouvidos já estão calejados de ouvir a velha ladainha que diz que para atrair alguém, a pessoa deve, antes de mais nada, amar a si própria. Como sempre fui muito critico, inclusive comigo mesmo, nunca fui de ficar tentando lamber minha própria bunda, e por isso admito ainda estar um pouco distante do ponto ideal.
E não creio que isso de auto-estima diga alguma coisa no que se trata de fazer alguém gostar de você. Nunca ouvi ninguém dizendo: "olha, gostei muito dele... ele gosta tanto de si".
Na verdade, prefiro ser um pouco mais cruel e perspicaz. O que fala alto nesse mundo tem um nome que começa com S e termina com TATUS.
Abri minha janela e dei de frente com o meu jardim, onde vi espalhados e mortos todos os gnomos nos quais um dia acreditei.
Não sou materialista ainda. Me classificaria apenas como um humanista dotado de uma dose um pouco mais apimentada de realidade.
Em todo caso, proponho um brinde ao amor, se ele ainda existir, é claro.

KEMIS VIANA DA SILVA - 7:34 AM

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Sábado, Novembro 20, 2004


Just in time

Ando incomodado com uma coisa aparentemente simples.
Estou sem tempo.
Na semana passada, meu querido novo chefe deu-me um sorriso de pouco caso, quando aleguei em tom bem firme:
- Olha, para ser sincero, isso não ficou pronto porque não tive tempo mesmo.
Ele me fitou como a quem acabou de dizer uma heresia, e usando de seus providenciais conhecimentos de gestor que bebe na fonte dos livros do Chiavenato, soltou:
- Eu acho que você tem que gerenciar melhor o seu tempo.
Só faltou dizer, logo em seguida, o capítulo e a página de onde tirou aquilo.
Passadas as agruras da semana administrativa, chega o fim de semana. Logo na sexta à noite, começa a maquinar em minha mente um agendador me cutucando, enquanto pergunta:
- E aí, mermão? Vai fazer o quê nesses dois dias?
Começa o sábado, acordo costumeiramente já tarde. Afinal, não é sempre que posso dormir sem o peso de ter de acordar cedo.
Após o banho, olho em torno e tenho:
- um "Código Da Vinci" quase intacto, pedindo para ser lido;
- um website em PHP inacabado, com prazo para conclusão urgente, urgentíssimo;
- três ou quatro relatórios da bolsa de iniciação científica para preencher;
Ihh, rapaz, tenho que correr na locadora para devolver o DVD que assisti ontem à noite. No caminho aproveito e passo no caixa eletrônico para abastecer a carteira e retirar o comprovante de pagamento da luz que a minha mãe tá me cobrando há anos.
É quando lembro que a galera do trabalho me chamou para bater um futebol na chácara, às 02:00 da tarde. Será que vou?
Ah, mas não posso esquecer que amanhã tem concurso e preciso ler a penca de apostilas de Direito que ficaram pendentes, para não ficar totalmente alienado na hora de encarar a prova.
Droga! E a balada que eu queria encarar hoje à noite? Faz tempo que não saio. Será que vai dar pé?
Cara, e a visita à casa da Nanda para conhecer a sua recém-chegada ao mundo, Gabi? Que horas eu vou?

Ai, Cronus, Deus do tempo!
Porque tanto faz sofrer este seu pobre escravo?
Chega a tarde, e quando me dou por si estou hipnotizado na frente do computador, ouvindo alguma música no Media Player. E a pergunta martelando na cabeça:
- E agora? O que eu faço?
Extrato do dia: termina o sábado e nem 10% do que eu havia planejado foi feito.
Domingão é clássico. De manhã nada, de tarde, TV Bobagem.
Fim do dia, Fantástico, algumas guloseimas na Praça Plácido de Castro e cama.
Relatório do fim de semana: tarefas e mais tarefas não concluídas.
Na segunda-feira pela manhã, encaro meu querido novo chefe. Fazendo uso da matéria que leu em sua Você S.A., que reza que o chefe deve saber mais sobre seus subordinados, ele pergunta educadamente.
- E aí? Curtiu bem o fim de semana?
Em minha mente insana, a melhor resposta que idealizo para a pergunta é sair correndo em disparada pelo corredor, enquanto puxo os meus cabelos. Mas me contenho e respondo à altura:
- Sim, muito bem. E você, chefe?

KEMIS VIANA DA SILVA - 7:13 PM

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Sexta-feira, Novembro 19, 2004


Remonta ao passado, mas está mais atual do que nunca...

Preciso Me Encontrar
Cartola

Deixe-me ir, preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar

Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer, quero viver

Deixe-me ir preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar

Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Quando eu me encontrar

Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas do rio correr
Ouvir os pássaros cantar

Eu quero nascer, quero viver

Deixe-me ir, preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar

KEMIS VIANA DA SILVA - 7:31 PM

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Quarta-feira, Novembro 17, 2004


Acabou, chorare!

Não. Eu estava errado. Foi uma névoa passageira, encobrindo as verdades que me aterrorizam.
Foi um cisco no olho que, cossado com mais cuidado, saiu de clareou a imagem ao redor.
As coisas continuam as mesmas. Eu continuo o mesmo.
Prefiro acreditar na velha teoria dos fins de ano. Eles são trágicos na minha vida. À medida que se aproximam os fins de ano,
as coisas conspiram para que fique tudo arranjado da forma que me maltrate melhor.
Eu tentei ficar alguns dias sem ser eu mesmo. Mas percebi que é impossível.
Eu podia ir dormir sem essa.

KEMIS VIANA DA SILVA - 1:58 PM

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Segunda-feira, Novembro 15, 2004


Um novo tempo...

Que vento é esse, quem passa sobre nossa cidade, traz um clima agradável, depois se vai, trazendo de volta o calor insuportável de uma cidade sem praia?
Que onda é essa, que proclama uma fase de mudanças, uma atrás da outra?
Ao longo dos últimos dias, assisti Fidel Castro tropeçando e se espatifando no chão, vi um cowboy ganhar as eleições no país mais rico e arrongante do mundo, assisti à morte de Yasser Arafat e, principalmente, arranjei uma namorada que parece entender a minha cabeça maluca.
Apesar dos impactos, acho que estou gostando da nova realidade.
Mesmo assim, poderiam me conceder um tempo para absorver todas essas mudanças?
Aí então eu poderei voltar a construir idéias e voltar a escrever.
Até mais.

KEMIS VIANA DA SILVA - 2:22 AM

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Quinta-feira, Novembro 11, 2004


Uma singela homenagem ao nascimento de minha afilhada, Gabi.
Felicidades, meu anjinho.
E claro, meus parabéns à Mamãe-maravilha, Nanda.
Vamos marcar para mim visitar essas duas moças.


KEMIS VIANA DA SILVA - 3:18 AM

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Sábado, Novembro 06, 2004


God bless America!

- Está tudo consumado!
A frase é conhecida e remonta aos últimos instantes de Jesus na cruz.
Comparativamente, o cenário de hoje é bem menos importante do que este episódio histórico, que representa o momento exato da gênese do cristianismo.
Em todo caso, senhores, cabe-me avisar aos menos avisados.
- Está tudo consumado de novo!
O mundo está sujeito a mais quatro anos de governo de um antílope chamado W. Bush.
Sei que não serão estranhas reações do tipo "e o que eu tenho a ver com isso?". Ao que eu respondo: "tem tudo a ver".
Bem além das conseqüências vistas do prisma político - e que são as mais visadas - , a vitória republicana nos Estados Unidos representa a continuidade de uma linha idiota de raciocínio: a do não raciocínio. Representa a confirmação das malévolas hipóteses que nossos subconscientes infantis, criados assistindo a desenhos animados no Balão Mágico, se negam a aceitar até hoje: a de que o mal venceu o bem.
Mas sejamos justos. A César o que é de César. O mundo só terá aquilo que merece ou o que ele mesmo pediu. E o que o mundo quer para si atualmente?
O mundo quer motores mais potentes, que lancem, em teor cada vez maior, mais fumaça na atmosfera. O mundo precisa de mais urânio empobrecido e de orçamentos de quinhentos bilhões de dólares para investir em um maquinário bélico que mate mais inocentes em menos tempo e que permita com mais eficiência a quebra da soberania das nações mais pobres.
O mundo precisa de mais shoppings centers, de mais McDonalds e de mais jovens fúteis e idiotas que ojerizam os livros e se deixam influenciar por uma cultura do filé com fritas e de Britneys cantando "Oops! I did it again".
Aos mais competitivos e acostumados ao mantra do "eu sou mais eu", dou meus parabéns e desejo de coração muito sucesso. Afinal, o mundo está configurado on demand para vocês. Darwin deve estar saltitando em sua urna, proferindo alegremente: seleção natural, eu não falei?!
Ainda me restava na alma uma fagulha, mas ela apagou-se esta semana. Por isso, hoje posso afirmar sem titubear que eu não acredito mais em gnomos e nem na remota possibilidade de que valha a pena ser bom.
A História caminhou anos afora, num lento processo de democratização e respeito ao ser humano. E hoje nos vemos rodeados por figuras aterrorizantes que propagam um clima de terror ao mundo e que se impõem à base de arrogantes concepções étnicas, políticas e religiosas.
O ano é 2004. Mas estamos mentalmente vivendo vinte anos atrás, num 1984, o ano que não acabou. A configuração geo-política do mundo está em muito parecida com a idealizada por George Orwell. Basta agora nos distribuirmos em grandes blocos continentais e o livro estará materializado.
Desculpem-me o conteúdo "nostradâmico", mas é que olhar ao redor e não falar nada costuma me causar náuseas. E no momento, não estou vendo nenhuma pílula contra enjôo ao alcance de minhas mãos.