Quinta-feira, Dezembro 23, 2004


Relatório Hite

Me lembro de um livro com uma capa já bem surrada e pelo qual tomei muito apego logo que li suas primeiras páginas. Ele vivia jogado pelo canto da prateleira, na biblioteca da escola onde eu trabalhava, três anos atrás.
Chamava-se Relatório Hite. Era uma espécie de questionário bem detalhado, composto por perguntas, as mais diversas, feitas apenas para mulheres, sobre seus hábitos sexuais.
Algumas coisas interessantes me chamaram muito a atenção, como por exemplo, perguntas sobre quantas vezes as entrevistadas costumavam se masturbar no mês, ou se já haviam praticado sexo com comportamentos sado-masoquistas, sevícias sexuais, ou coisa assemelhada. Como não tinha tempo, não consegui ler o livro o suficiente sequer para saber qual havia sido a conclusão final daquele levantamento. Mas confesso que achei a temática bastante interessante. Ao ponto de descobrir, algum tempo depois a existência de outros livros da mesma modalidade, como por exemplo, o Relatório Kinsey, outro que, segundo a crítica, também é um documento definitivo sobre o comportamento sexual humano.
Pode parecer obsessivo ou mesmo bizarro, mas o fato é que descobri no ato (não meu, mas de outros) de chafurdar na vida sexual das pessoas um bom meio de entretenimento.
Tanto é, que tenho notado ao longo dos anos, que seja no meio artístico, através da obra e biografia explicitamente eróticos de Pablo Picasso; seja nas publicações de finalidade cientifica, como nos casos dos livros que citei acima, ou mesmo outras com finalidades não tão cientificas assim, a sondagem do comportamento sexual é algo que me cria uma certa apreensão. Enfim, acho bastante interessante.
Provavelmente por isso, comecei a admirar outros meios e expressões que exploram bem o tema. O cinema, por exemplo, é um meio riquíssimo no assunto.
A propósito, talvez não seja coincidência o fato de estar escrevendo sobre esse assunto logo após ter assistido pela primeira vez o premiado ¿Sexo, mentiras e videotape¿. Gostei muito do filme e poderia facilmente citar outras películas de teor igualmente interessante sobre o tema sexo. Entre eles ¿O último tango em Paris¿, com o inesquecível Marlon Brando; o clássico e bem mais pop, ¿9 e ½ semanas de amor¿, com sua recorrente cena de sexo com direito a gelinho escorregando no umbigo e outros um pouco mais atuais, como ¿Assédio sexual¿, representado a rigor por um legítimo conhecedor do assunto, o ninfomaníaco Michael Douglas, ou ¿Infidelidade¿, com Diane Lane.
Inescrupuloso ou não, acredito ser o interesse por sexo algo inerente a todos. Pois enquanto via em ¿Sexo, mentiras e videotape¿ a cena da frígida Ann investindo para cima do estranho Graham., percebi que o que muda de uma pessoa para outra é apenas o beat, o ritmo ao qual cada um está habituado.
Na verdade, em seu interior, todo ser humano parece guardar uma habilidade para o sexo, que hora ou outra acaba se manifestando. Fato que me faz parar e ficar pensando no quanto nossos comportamentos às vezes se parecem com os dos protagonistas dos documentários do Animal Planet. Enfim, somos parte do ecossistema.

KEMIS VIANA DA SILVA - 2:48 AM

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Domingo, Dezembro 19, 2004


Tenho o que quero, não o que preciso

Como Natal sempre lembra presente, acabei constatando algo interessante.
A febre do consumismo não tem mais a capacidade de instigar em mim nenhuma grande manifestação
compulsiva de comprar algo para satisfazer minhas necessidades momentâneas.
Os bens materiais que qualquer jovem gostaria de ter já não me causam mais tanto interesse, mesmo porque uma boa
parte deles eu já os tenho.
Há alguns anos atrás, a coisa que mais desejava nesse mundo era ter um discman.
Hoje, olho para cima da prateleira e nela vejo pousado o bendito aparelhinho junto com mais um monte de CDs que já não
ouço mais. Ao lado, outros tantos sonhos de consumo antigos que já realizei.
Olhando de modo mais abrangente todo o espaço do quarto, me vejo rodeado de todas as parafernálias que sempre desejei possuir.
TV, videocassete, DVD, microsystem, linha telefônica, computador, celular...
Mas e daí?
De que isso me vale, se as coisas de que realmente preciso para me tornar satisfeito e realizado parecem fugir de mim.
Minhas faturas de cartão de crédito a cada dia aumentam mais. Minhas responsabilidades também. E, contrariamente a tudo isso, sinto as bases
emocionais de minha vida irem se tornando cada vez mais frágeis, quando deveriam estar me ajudando a encarar as intempéries da vida.
Algumas crises de angústia vez ou outra se apossam de mim. Sofro momentos de solidão assustadores, surtos de medo e pânico
surgem à minha frente quando penso na vida e no que o futuro me reserva. Acho que estou me tornando psicótico.

KEMIS VIANA DA SILVA - 2:51 AM

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Domingo, Dezembro 12, 2004


Emulando...

Vou escrever que nem uma menininha no seu diário de capa de pelúcia, cor de rosa:

"Querido diário.
Este fim de semana foi ótimo. Curtição total. Me diverti muito. Saí com a galera para fazermos compras.
Putz. Tinha gente pacas lá! Mas foi show. Tirando aquele povinho repugnante (é assim que se escreve?) lá daquele país.
Ninguém merece.
Já tô preparando minha roupinha para o reveillon. Só tô em dúvida com uma coisa... onde vai ser? Será que eu vou
para aquele onde a entrada custa 50 reais, ou o outro onde a mesa custa 200 reais? E de onde eu tipo essa grana?
Acho que minha poupança agora vai. Ai, dúvida cruel! Ainda bem que eu vou beijar, mooooito!
Até maix, beixinhoxx"

Com licença, preciso ir ao banheiro. Me deu náusea!

KEMIS VIANA DA SILVA - 9:00 PM

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Sábado, Dezembro 11, 2004


Por quem os sinos dobram

Por que chora o ser humano?
Diria que chora de solidão, pelo medo de viver ou, quem sabe, de morrer sozinho.
Chora pelas perguntas que palpitam em sua cabeça sem nunca encontrarem respostas.
Chora pelo medo do fracasso, pelas mazelas do sucesso.
Chora tão somente pela estranha capacidade de que nasceu dotado, e que o permite especular, questionar e destoar daquilo que a maioria prefere insistir em ser o certo ou o errado.
O ser humano chora pelas coisas mais simples, por um cisco no olho, por um caso mal resolvido. Chora pelos efeitos de suas obras e de suas palavras sobre o seu próximo. Chora pela fragilidade de sua composição, sangue, carne, osso.
Chora pela carência de alguém, pela presença de alguém, pelo excesso de alguém.
O ser humano chora pelo temor de um dia definhar, de enlouquecer de vez com o mundo que o entorna, pelo medo de dar como perdida a razão e lucidez que sempre se gabou de possuir.
O ser humano chora por sua insignificância, minúsculo que é para o universo e para a história.
Chora pelos instantes em que se sente minorizado perante seus iguais, em que se sente inútil e vulnerável.
Chora pela fome, chora pela falta de fome. Por ser magro, chora por ser gordo.
O ser humano teme pelo que lhe espera, como um réu que aguarda a sentença, como um artista no camarim. Chora pelas lembranças, pelo esquecimento.
E, principalmente, sofre por amor. Pela presença ou pela falta dele.
Numa manhã nublada, no crepúsculo de uma tarde, numa noite insólita.
Inconstantes os seres humanos, que tocados pela natureza, padecem pelo infame dom de retirar de seus dias os motivos para ato tão impensado quanto inevitável: o dom de chorar pela vida.


KEMIS VIANA DA SILVA - 2:49 AM

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Terça-feira, Dezembro 07, 2004


Primogênitos e Progenitores

Estranha essa relação entre pais e filhos. Entre as poucas coisas que se pode reconhecer como universais nessa vida, certamente figura este atrito histórico que há e sempre houve entre criatura e criador.
Delimitando um pouco mais o espaço amostral, o conflito parece ser um pouco mais intenso quando figuram entre os protagonistas da história qualquer uma das categorias enquadradas como pré ou pós-adolescentes, ainda que não exclusivamente.
Interessante é o fato de haver uma tendência natural ao confronto. Os desentendimentos insistem em acontecer, nem que sejam pela falta de uma razão para tal.
Somos facilmente irritados pelos nossos pais, na mesma proporção em que parecemos os irritar.
Eles nos fazem acreditar que possuem uma fórmula perfeita para só fazerem aquilo que não nos agrada. E vale a recíproca também.
Mas entre as causas mais prováveis para essa falta de sintonia entre pais e filhos, eu aponto as diferenças culturais e de criação.
Somos muito diferentes.
Ontem mesmo discutia com uns amigos sobre essas dificuldades de entendimento.
A nossa região tem uma cultura legada principalmente de nordestinos e, posso estar enganado, mas a impressão que se tem é que neste tipo
de criação é muito comum as pessoas, sobretudo os homens, terem extrema dificuldade em expressar seus sentimentos. E isso é outro fator
que atenua essa falta de harmonia no relacionamento fraternal.
Já ouvi uma série de pessoas dizendo que nos últimos minutos de vida, todo "casca-grossa" se arrepende pelo seu comportamento fechado
ao longo da vida.
Não páro de pensar nisso toda vez que me imagino tendo filhos. Eu quero mudar esse modo frio de relacionamento entre familiares, pelo menos
da minha geração em diante. E para esta que ainda perdura, proponho não deixarmos para os últimos minutos aquilo que podemos dizer hoje.

KEMIS VIANA DA SILVA - 1:14 PM

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Sábado, Dezembro 04, 2004


I'm a Firestarter!


Abaixo, uma demonstração real do que pode acontecer com os meninos maus.
Esse e-mail, eu recebi ontem de uma amiga já de alguns anos.
Diz o seguinte...

"Oi, Kemis!
Dessa vez não vou lhe perguntar como vai você, porque já percebi que permanece neutro, sem vida, sem
auto-estima, como se todos os dias fossem iguais, sem esperança, sem namorada, mau sediverti e quase sem amizades.
Kemis, percebi que a minha amizade não é útil em sua vida.
Hoje vejo mais claro sobre a sua situação.
Quero pedir desculpas por pensar que eu tinha um amigo.
Desculpas pelas muitas vezes que lhe atrapalhei.
Eu estou aqui ótima.
Procure ajuda nao apenas de um especialista, talvez as respostas que vc tanto procura estejam dentro de você.
Não seja tão pessimista, isto distancia as pessoas.
Não quero ter uma amizade onde a pessoa se sinta a pessoa mais indesejada colocada na terra.
Eu acredito em suas qualidades, pena que você nao acredite!
Incrível pelo tempo que eu ti conheço vc apenas regrediu, essa a minha opinião.
Como querer receber flores, se vc ao mesnos faz por merecer.
De que faz sentido a vida sem os perigos, os medos, as tentações, as perdas, os ganhos, um sorriso, uma gripe, um abraço....
Você me ensinou algumas coisas sem perceber. Aprendicomo é ruim ver uma pessoa se auto-juga ser horrível e nao poder ajudar, pensa que atrapalha, onde
chega uma hora que você vê que não pode colaborar em NADA.
Resolvi hoje falar para voce que nao vou mais ti escrever.
Que não vou mais ti telefonar.
Que nao vou nem mais lembrar de vc!
Decide que parte desse mundo vc quer particpar!
Não é um até logo. E até nunca mais.
EU CANSEI, DESISTO
Digo tudo isso francamente.

xxxxxx xxxxxxxxx "

Só faltou dizer que eu sou tóxico.
Portanto, senhores, se afastem de mim enquanto é tempo.
Eu posso causar-lhes algum mal, e esta não é minha intenção. Eu juro.