Sábado, Janeiro 29, 2005


"Somos tijolos na olaria de Deus"

Estava eu me embalando na cadeira da varanda, quando ouço de longe uma cantoria se aproximando.
Eram umas três mocinhas, virando a esquina e cantarolando uma canção que, se não ouvi mal, dizia mais ou menos isso: "somos tijolos na olaria de Deus".
Achei um tanto cafona, mas imediatamente liguei o verso a um pensamento meio filosófico que tive esses dias.
Estive lendo um pouco sobre Kant, o filósofo alemão, que segundo os estudiosos, recriou o pensamento metafísico moderno (perdoem o palavrão).
E entre as tantas explicações científicas para suas razões "pura, teórica e de juízo", encontrei um artigo - este, bem mais terreno - que falava um pouco sobre os hábitos pessoais de Kant.
Segundo consta, ele gostava de fazer caminhadas pelas calçadas de sua fria Königsberg, e para não o fazer sozinho, costumava levar consigo o seu criado Lampe.
Conta a história, que de tanto conviviver com Kant, o velho Lampe adquirira uma boa dose do ceticismo e da descrença de seu amo em Deus.
Talvez por isso, um dia Kant notou nele uma tristeza além do normal, resultado do ateísmo adquirido ao longo dos anos.
E sabendo Kant que era ele o grande causador desse efeito em seu criado, pôs-se a repensar toda a sua filosofia.
Partia de um axioma bem simples:
- Se mesmo existindo ou não, a ausência de Deus causa infelicidade e desorientação nas pessoas, não seria mais válido acreditar nele assim mesmo?
Foi nesse instante que nasceu o chamado agnosticismo, posicionamento religioso no qual eu melhor me encaixo atualmente.
Por várias vezes tive que me desentender com as pessoas que perguntaram qual a minha religião. Eles insistem em dizer que eu sou ateu, mas isso eu não sou.
Não teria tempo nem inteligência suficiente para ficar elaborando estudos e conjecturas para provar que Deus não existe.
Em vez disso, prefiro acreditar na aplicação de algo mais prático para a vida. O respeito à individualidade de cada um (o que inclui o direito a escolher no que se quer crer) e à felicidade do próximo.
Para mim, melhor age aquele que não pensa em causar o mal proposital ao próximo de maneira maquiavélica.
E sendo Deus a figura onipresente desse universo, possivelmente estará assistindo de camarote esses atos e verificando o valor de cada intenção que temos dentro de si.
Nisso não custa acreditar.

KEMIS VIANA DA SILVA - 5:14 AM

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Sexta-feira, Janeiro 21, 2005


Colorblind

Às vezes eu me questiono se isso tudo pelo que passo é só uma fase. Ou se será minha sina enquanto estiver vivo.
Às vezes sinto medo de tudo o que me acontece hoje estragar totalmente minha pessoa, de me impedir de
viver em paz ou de me relacionar com as outras pessoas.
Penso nas marcas que esses anos difíceis têm deixado em mim, me tornando um sujeito estranho, ranzinza, desacreditado.
Não vou estranhar nenhuma vez se as pessoas me virarem a cara. Na verdade eu até mereço isso.
Tive o azar (que dizem não existir) de nascer assim, triste por natureza. Infeliz por ocasião do destino.
Fica cada dia mais inviável, mais escuro. Eu não sei mais de mim, do que sou, do que serei daqui há uns anos.
Se no futuro estarei apenas lembrando dos dias de hoje como quem lembra de um sonho ruim que passou. Ou se estarei
ainda pior do que hoje, ou se em um lugar inexplicavelmente diferente deste mundo.
Nessas horas eu apago as luzes e fecho os olhos para não ver o que vem pela frente.

KEMIS VIANA DA SILVA - 5:06 AM

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Domingo, Janeiro 09, 2005


Será que eu passo?

Essa a cópia tale quale de minha dissertação para o vestibular que eu fiz hoje. Será que dá?

"Num país como o Brasil, onde os contrastes e injustiças de cunho social e político figuram entre as maiores características nacionais, o instrumento do voto assume um papel de extrema importância para o exercício da cidadania e para a própria melhoria das condições de desigualdade hoje existentes. No fervor da discussão, surgem correntes que afirmam ser o voto um direito de cada cidadão, ao passo que outros incorrem na afirmação de que, mais que um direito, o voto é um dever do cidadão.

A idéia de voto como direito traz consigo argumentos históricos, que remontam épocas marcadas por lutas populares, muitas vezes sangrentas, onde o grande ideal era adquirir o direito de usufruir da oportunidade de participar ativamente das decisões políticas, antes concentradas nas mãos da elites, fato caracterizado em várias nações do mundo. Este retrospecto, no entanto cede lugar, nos dias de hoje, a justificativas bem mais simplistas, que julgam o ato de votar apenas como o cumprimento de uma obrigação legal.

Por outro lado, é possível encontrar aqueles que enxergam no voto uma chance de reafirmar o dever político do cidadão como figura ativa no processo democrático.
Para estes, a concepção de voto assume um aspecto mais coercitivo, dada a seriedade deste poderoso instrumento, capaz de modificar a realidade que predomina, por mais inflexível que ela pareça ser.

Assim sendo, é possível notar que a importância do voto num país como o Brasil é de fato muito grande. Independentemente de analisar o ato de votar
como direito ou como dever, a atitude política do cidadão deve vir acompanhada de uma postura ética, que vise a melhoria das condições de vida de todos aqueles que compõem a nação".


KEMIS VIANA DA SILVA - 1:41 PM

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Sábado, Janeiro 08, 2005


Teoria Geral da Abominação

Sentei por pelo menos um ano e meio em banco de Universidade para assistir a aulas de Administração e de Organização & Métodos.
E com todo o respeito e mérito que possam merecer os senhores Frederick Winslow Taylor e Henri Fayol, nunca imaginei que
essa ciência um dia se converteria em um monstro tão assustador quanto este ao qual assisto horrorizado se apoderar
da vida do cidadão moderno.
Por vivência prática, aprendi a criar uma enorme ogeriza pelas práticas administrativas tradicionais. Mas confesso
que as mais recentes tendências também não me inspiram grandes sentimentos satisfação. O rumo para onde o mundo vai
em muito me preocupa, pois inevitavelmente uma hora ou outra vem aquela velha sensação de "eu não vou me adaptar".
Pelo menos devo reconhecer: o futuro, ou mesmo o presente, é esse aí mesmo.
A competitividade se tornou a màxima dos dias atuais. Dentro de pouquíssimo tempo (se é que já não é assim), o simples
direito de trabalhar, de usufruir de dias melhores, de ser um cidadão feliz e realizado, serão privilégios restritos
tão somente aos vencedores dessa selvagem seleção natural do capitalismo yuppie, que toma conta das avenidas lotadas
de engravatados, que atravessam a faixa empurrando uns aos outros.
Um mundo dominado por malditos self-made men que, de suas longas e espelhadas mesas, tentam enxergar as oportunidades
de estufarem os bolsos com a liquidez de seus investimentos.
Um mundo otimizado, que tenta fazer melhor uso do recursos escassos de que dispõe, o que prediz muito racionamento,
muita mesquinharia, muita filosofia do "meu pirão primeiro".
Me assusta a notoriedade esnobe e bossal dos Roberto's Justus, dos Nizan Guanaes, que sobem nos palanques se travestindo
de Super-sabe-tudo, pregando fórmulas do sucesso baseadas no estilo de vida do cresça, apareça e compre uma Ferrari.
Essa engrenagem dos stupid white man têm alargado as relacões interpessoais, tornando-as mais falsas e inconsistentes.
O stress e depressão se tornaram sintomas obrigatórios nas pessoas inseridas nas organizações modernas.
E de quebra, ainda sou obrigado a lidar todos os dias com pessoas doutrinadas nessa crença do mundo burocraticamente
impecável, hierarquicamente equilibrado, e que acreditam ser possível ser feliz com o simples fato de ter uma mesa
atolada de papéis e um Pentium 4 com Internet só para você.
De fato, sou adepto de concepções muito demodês e utópicas. Ciência para o bem da humanidade, publicidade humana,
administração solidária, pessoa em vez de empregado. Riam de mim se quiserem, mas eu acredito nisso.

KEMIS VIANA DA SILVA - 7:50 PM

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Sábado, Janeiro 01, 2005


Feliz dois mil e sempre

Acabei de acordar. Não senti resquício algum de ressaca.
Ouvi tão somente um delicioso barulho de chuva lá fora e senti alguns pingos caindo da goteira do meu forro,
molhando meu cobertor.
Quando levantei, abri a janela e me surpreendi com a impressionante constatação: eu estava vivo, eu sobrevivi a 2004.
Da maneira como passei a virada de ano, imaginava que fosse amanhecer pelo menos morto de decepção.
Pois apesar de há tempos já desejar experimentar um reveillon acompanhado apenas de mim mesmo, só ontem pude vivenciar
essa inigualável experiência. E devo confessar, não é tão ruim como se pode imaginar.
Mais se parece com um encontro consigo próprio. Além de ser um castigo merecido para quem não construiu nada de muito bom
ao longo do ano que passou.
Em 2004 eu só reclamei, só chorei, usei e abusei do meu direito de ser triste. E não que venha por aí uma daquelas
desafortunadas promessas de fim de ano, onde o indivíduo jura que fará mil coisas para melhorar, que será outra pessoa
ou que tudo será melhor, mesmo que esse "tudo" não esteja necessariamente sob seu controle.
Convenhamos, se há o que mudar, porque estas coisas só podem acontecer justo no momento em que o último algarismo
do ano muda para um maior que ele?
O que eu espero é que neste ano, e em todos os anos que a ele se precederem, as coisas assumam a postura de uma parábola
positiva, sempre tendendo a uma subida, onde as melhoras vão sendo sentidas, nem que seja gradualmente; nada dessa de
milagres instantâneos, pois eles definitivamente não existem.
Mas para não dizer que não falei das flores, se cabem aqui algumas diretrizes para os dias que se seguem, poderia
enumerar algumas. Para este ano, quero:
- excluir da minha vida as pessoas que me causam mal-estar;
- decidir de uma vez por todas se pulo ou não da ponte;
- aprender a me manter neutro diante das situações mais adversas;
- começar enxergar essas tais pequenas coisas que fazem a vida valer a pena (isso inclui a necessidade de um par de
óculos novos);
- fazer um uso mais frequente da expressão "foda-se"; e
- começar a juntar meus primeiros tostões para uma viagem à Europa (não posso morrer sem ir à Europa).
Já para aqueles, amigos meus ou não, que possuem na alma sentimentos e aspirações mais otimistas que as minhas, desejo
que consigam realizar seus sonhos e possam, ao longo desses próximos doze meses, soltar da garganta o abafado grito de
"eu consegui".
E que possamos tocar juntos a maior de todas as empreitadas, o ato de respeitar aos nossos próximos.
Este é o primeiro dia do resto nossas vidas.