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Segunda-feira, Outubro 24, 2005


Pergunta idiota, tolerância zero!

Cansado de receber spans todo dia, ontem resolvi responder a este, dando a seu suposto autor as respostas que tanto atormentam sua alma.
Os grifados são minhas respostas...

- Não é engraçado como R$ 10,00 parece tanto quando o levamos à igreja e tão pouco quando vamos ao shopping?
>>O dinheiro investido na igreja não tem retorno (pelo menos material). Os do shopping têm.

- Não é engraçado como uma hora é tão longa quando servimos a Deus, mas tão curta quando assistimos a um jogo de futebol?
>>O primeiro tem tom de obrigação, o segundo, de entretenimento.

-Não é engraçado como não achamos as palavras quando oramos, mas elas estão sempre na ponta da língua para conversarmos com um amigo?
>>Quando oramos estamos nos dirigindo respeitosamente a algo muito maior. Com um amigo, a conversa é totalmente coloquial.

-Não é engraçado sentirmos tanto sono ao ler um capítulo da Bíblia mas é fácil ler 100 páginas do último romance de sucesso?
>>Eu, pessoalmente, pego no sono em ambos os casos.

-Não é engraçado como queremos sempre as cadeiras da frente no teatro ou num show, mas sempre sentamos no fundo da igreja?
>>No teatro, os atores no palco se retratam ao público, eles que têm que provar que são bons. Na igreja, nos últimos anos, as pessoas vão para ver umas às outras, e não prestar atenção na pregação. Por isso, sentar na frente pode causar vergonha, pois é o lugar mais visível a todos.

-Não é engraçado como precisamos de 2 ou 3 semanas de antecedência para agendar um compromisso na igreja, mas para outros programas estamos sempre disponíveis?
>>Puro hedonismo. O que é mais divertido? Uma hora e meia de cadeira ou um dia na piscina?

-Não é engraçado como temos dificuldade de aprender a evangelizar e como é fácil aprender e contar a última fofoca?
>>Coisas bobas, como uma fofoca, não exigem uma habilitação para serem ditas. Já o ato de difundir para mais de uma pessoa ideologias religiosas exige uma boa formação filosófica ou acadêmica.

-Não engraçado como acreditamos nos jornais, mas questionamos a Bíblia ?
>>Hoje, podemos contestaras notícias, porque vemos os fatos in loco. Os fatos descritos na Bíblia, não.

-Não é engraçado como todo mundo quer ser salvo desde que não tenha que acreditar, dizer ou fazer nada ?
>> Juro que não compreendi essa...

-Não é engraçado como mandamos milhares de piadas pelo e-mail que se espalham como um incêndio, mas quando recebemos mensagens sobre DEUS não reenviamos para ninguém?
>> Eu, pessoalmente nem repasso, nem gosto de receber spans. Mas para quem repassa, é difícil mandar mensagens religiosas, pois todo mundo tem uma religião diferente. Dependendo do caso, pode soar até como ofensa.

- Não é engraçado que quando você for repassar esta mensagem você vai excluir um monte de gente que você acha que não acredita em nada?
>> Estou mandando para todos que receberam antes.

Não é engraçado? Não, não é engraçado, é triste
>> Eu não acho.
KEMIS VIANA DA SILVA - 12:36 AM

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Sábado, Outubro 15, 2005


Unplugged

Pode parecer estranho, mas fui acometido por uma 'conectofobia' que me fez decidir repentinamente por me desplugar de tudo. Orkut, Beltrano, Gazzag, e sei lá o que mais, são ferramentas interessantíssimas, poderosas, e dependendo das finalidades, até muito úteis. Mas o problema está justamente aí: nada na internet parece ser usado com o fim de ser útil. O fútil é a regra. Por isso resolvi cancelar minhas contas em todos os sites de relacionamento do qual fazia parte. E já penso seriamente em encerrar também a do Messenger. São quilômetros e quilômetros de papos e mais papos furadíssimos, de pouco conteúdo, com contatos (veja bem, contatos, não pessoas) pouco comunicativas e que definitivamente têm aversão a toda e qualquer conversa de fato aproveitável, sobre algo que realmente valha a pena ser discutido. Achei que era neura minha, mas conversando com o Alex, percebi que não sou só eu que noto o quanto nossas infindáveis listas de contatos está recheada de pessoas que nada têm em comum com nosso estilo, ou maneira de pensar. Pior que isso, que muitas vezes têm um péssimo caráter.
Eu falo mal, vivo criticando essas relações vazias dos chats de mensagens instantâneas, mas admito que nós mesmos construímos isso. Nós pedimos para que fosse assim a partir do momento em que menosprezamos o valor de uma boa conversa, e a trocamos por uma meia hora de 'oi, td bem?', 'tc de ond?'.
São as tendências dos dias atuais, ser muito na sua, individualista, cultuar a própria imagem, supervalorizar a estética e esquecer que existem coisas muito maiores que a bossalidade. Eu estou fora, estou out. Essa onda de 'Comunidade dos tiradores de meleca anônimos' só serve mesmo é para reunir um monte de espécimes vivos de uma geração que não tem mais nada de criativo para produzir, senão egocentrismo.

KEMIS VIANA DA SILVA - 1:40 AM

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Quinta-feira, Outubro 06, 2005


Sim ou não

A discussão do momento é o referendo sobre o desarmamento e proibição do comércio de munições.
De uma forma bem boolena (aberto/fechado, aceso/apagado, preto/branco, café/leite), caberá ao brasileiro expressar sua opinião apenas com um singelo "sim" ou "não".
Nada contra a assertividade, mas sempre fui entusiasta da idéia de que poucas coisas na vida são perfeitamente resolvíveis com posicionamentos simplórios.
Trocando em miúdos, o que quero dizer é que, no caso deste referendo, aquilo que deveria soar para o cidadão como uma oportunidade ótima de expressar democraticamente sua opinião, pode acabar se tornando um ato compulsório com pouca ou quase nenhuma liberdade de escolha.
Pode parecer estranha a afirmação, mas tente responder sinceramente: você se habilita a afirmar com toda a certeza do mundo que um simples "sim" ou "não" pode resolver (ou piorar) definitivamente a situação desta mazela social brasileira que é uso indevido das armas?
Eu pessoalmente tive tempo suficiente para pensar no assunto; até me lembro de, em julho do ano passado, ter lido uma matéria na Veja alertando para a importância desse referendo. Mas brasileiro, vocês sabem, sempre deixa tudo para os últimos minutos, e a dúvida ficou.
Tenho tido até pesadelos nos últimos dias, onde me vejo chegando na frente da urna eletrônica e tremendo as pernas sem saber onde apertar. No final do pesadelo, eu saio correndo aos gritos e puxando os cabelos.
Excentricidades à parte, acredito que deliberar sobre um assunto de tal importância com apenas duas opções restritas, como "sim" ou "não" é algo extremamente perigoso. Isso para não dizer ineficaz, pois certamente a decisão que o resultado desta eleição irá gerar não se constituirá em uma solução efetiva para a barbárie à qual assistimos atualmente e que, todos sabem, têm causas históricas pouco relacionadas com armas (educação precária, sistema de saúde público falido, desigualdades sociais, péssimas condicões de habitação e infra-estrutura, etc.).
Não será com um "sim" que o Brasil ou, em última análise, o brasileiro, se verá livre do espectro da violência que vem estabelecendo essa verdadeira "guerra civil" velada das últimas décadas. Eu não seria tão bobo de acreditar nisso, pois afinal, antes de mais nada, conheço bem o país pouco honesto onde eu vivo. O que visualizo para o futuro, numa situação de vitória do "sim" é o crescimento de um ilícito que já existe, mas que ainda pode piorar: o comércio paralelo de armas.
Já no caso de um "não", é quase certo de que surgiria uma espécie marketing positivo ao uso de armas e que iria nos impor um problema nefasto que atualmente assombra países como os Estados Unidos: o culto às armas.
A propósito, assistindo à propaganda gratuita do referendo, uma coisa me causou temor: o posicionamento da frente que apóia o "não". Bem além da pura e simples discussão sobre armas ou não-armas, ali ficou expressamente caracterizado que é ELA quem está por trás da campanha. Sim, ela ainda existe! A extrema direita brasileira, conservadora como sempre e mais ortodoxa do que nunca. Com um discurso embasado em exemplificações vazias e sem nexo algum, ela prega o velho conceito do respeito à sagrada "propriedade privada" e à "famílïa". Só falta fazer uma reedição da marcha dos 100 mil, de 1964.
Isso serve para notar que a política tornou-se pegajosa ao ponto de, mesmo diante do momento de putrefato moral em que estão atoladas nossas instituições, ainda assim os interesses políticos se fazerem aparecer, mesmo se tratando de um assunto de extrema relevância para o país.
Mas no meio de tanta indecisão, ao menos uma coisa me parece óbvia. Esse referendo servirá para optarmos entre deixar como está (não) ou criar uma remota chance de mudança da situação atual (sim).
A palavra de ordem é: que vença o bom senso! E que, depois de mais este pleito, cresçamos em cidadania e caminhemos para dias bem melhores que estes de hoje.
Só espero não fazer, no dia da votação, como a fábula do burro, que diante de um prato de água e outro de comida, morreu de fome e de sede, por não conseguir decidir em qual enfiava o focinho.

KEMIS VIANA DA SILVA - 12:59 AM

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Sábado, Outubro 01, 2005


Relações

Resolvi fugir um pouco da fumaça de Rio Branco e agora estou em João Pessoa, curtindo os últimos dias que me restaram das férias. E, entre uma praia e outra, estive notando o quanto essa minha mente maluca realmente é aleatória. Vejam só. Durante uma incidental cerveja à beira-mar, soprado pela deliciosa brisa marítima, me veio à cabeça, do nada, uma correlação meio sem nexo, mas que acho carregar um mínimo de sentido. Para que fique mais claro, já faz algum tempo que vivo a fuçar em busca de filmes antigos, ditos clássicos do cinema. Até ao "Dio come ti amo" eu já apelei na tentativa de entender o porque de falarem tanto desses filmes.
Coincidentemente, logo nos primeiros dias em João Pessoa, estava de passagem pela sala da casa dos meus anfitriões, quando vi, de bobeira, em cima da mesa, o notebook do meu amigo. Comecei a mexer, quando encontrei na pasta de filmes nada menos que "Tempos modernos". Apertei o play e comecei a assistir meio despretensioso. Para falar a verdade, só consegui parar quando o filme acabou. È chover no molhado dizer que o filme é fantástico, e de fato merece o título de clássico.
O caso é que, dias antes, ainda em Rio Branco, tinha ido ao cinema ver outro clássico, ou pelo menos o remake dele: "Fantástica fábrica de chocolate". O filme é bom, e apesar de não reconstituir fielmente o original (devo acrescentar que senti muita falta do Dumpa-dumpa-dumpa-di-dum) é um belo programa para relaxar a mente e tentar reacender o espírito de criança guardado em cada um.
Mas isso não importa. Voltando ao capítulo em que eu divagava à beira da praia, o que ocorreu foi que eu simplesmente comecei a ligar um filme a outro. E o que tem a ver o filme de Charles Chaplin com o magnata Willy Wonka?
Como aspirante a economista devo dizer: tudo.
Os dois mostram de modo bem claro os efeitos de um fenômeno que tomou de assalto o mundo capitalista industrializado: a automação.
Na verdade, antes disso, os filmes retratam o modus operandi da industrialização e a forma como ela influenciou e revolucionou as relações humanas desde o início do século XVIII. Quem leu um mínimo de ¿O capital¿ de Marx, percebe claramente que nos dois filmes, salta da tela a intenção de mostrar, seja através do humor irônico, seja através da comédia infantil, o quanto o modelo industrial influecia de modo preponderante nossos hábitos e nossas vidas.
Sei que é um papo meio intelectoloíde e bastante chato falar disso, principalmente começando a historia do jeito que comecei: praia misturada com férias, depois brisa, cerveja. De fato, nada a ver. Mas sei lá. Escrevi para não deixar passar batido e talvez para demonstrar que, apesar dos camarões e dos caranguejos, minha cabeça ainda está funcionando. São as férias acabando, é a mente começando a esquentar os tamborins.