Sexta-feira, Dezembro 23, 2005


Deja vú?

Não faz muito tempo, há uma hora e meia atrás, estávamos eu, Lígia e Alex comendo um providencial sanduíche na praça. Estávamos sentados, e eles naquele papo de namorados. De repente me começa aquela sensação, que já nem estranho, porque já tive muitas vezes. O que os psiquiatras chamam de deja vú. Comecei a ver coisas que me pareciam familiares, como se já as tivesse presenciado em outra ocasião. O problema é que esses fenômenos, pelo menos comigo, não duram mais que alguns segundos. E, desta vez, eu continuei vendo aquela repetição de coisas por um bom tempo. Acho que fiquei coisa de uns cinco minutos totalmente fora do ar, mirando para um ponto fixo à minha frente, e lembrando, além de tudo que se passava ao redor naquele instante, de uma longa seqüência de sonhos meus que, tenho a impressão, tê-los tido a poucos dias. O mais estranho é que, passados esses minutos de devaneio, quando tornei a si, tive a impressão de ter estado ausente fisicamente nos minutos anteriores, como se de fato eu estivesse mergulhado profundamente no flashback que se passou pela minha cabeça. Agora, nesse instante, estou com uma leve dor de cabeça, e ainda me sinto meio zonzo daquele baque. E juro que é como se uma série de problemas e questionamentos que vêm fazendo parte da minha vida pessoal e profissional estivessem bem frescos agora na minha mente, numa espécie de reflexão, ou sei lá o que. Coisa estranha, mas até que gostei dessa experiência de viajar total na maionese sem sair do lugar. Que se repita.

KEMIS VIANA DA SILVA - 1:35 AM

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Quarta-feira, Dezembro 14, 2005


Que eclético o quê!

Nos últimos meses, eu vivo a me questionar: de que ainda serve o uso da tradicional classificação dos sons em diferentes estilos musicais se, atualmente, todo cristão, quando perguntado sobre suas preferências musicais insiste em cair no mesmo lugar comum, dizendo, com toda a pose do mundo, que é eclético? A propósito, quem sabe o que é eclético? Vamos ao dicionário: do grego, eklektikós, 1 Relativo ao ecletismo. 2 Que seleciona; que escolhe de várias fontes. 3 Que não segue um só sistema de Filosofia, Medicina etc., mas seleciona e aproveita o que considera melhor ou verdadeiro nos vários métodos ou doutrinas[...] (Michaelis). Ou seja, a palavra em si é calcada em uma origem essencialmente filosófica. E de fato existe uma coerência quanto ao significado do verbete e aquilo que se pretende expressar ao se autointitular como eclético. Porém, notem.
Fica ou não fica evidente na face do cidadão, em pelo menos 90% dos casos, uma feição vaidosa e bossal de "nossa, como eu sou intelectual, meus Deus!", quando o mesmo responde que é eclético.
Além do mais, duvido muito que o nosso "eclético" aí tenha o menor saco para sentar 5 minutos numa poltrona e ouvir uma sonata de Chopin. Esse é igualzinho ao cínico que não tem vergonha de dizer numa roda de cerveja que adora Chico Buarque - os mais íntimos chamam simplesmente de "Chico" - só para tentar impressionar.
Já que as classificações musicais habituais caíram em desgraça e foram praticamente abolidas com essa onda de ser eclético, eu enfio logo o pé na jaca e custumo responder a quem pergunta sobre minhas preferências musicais que eu gosto de "tudo aquilo que é bom". E só.
Vão prá lá com esse falso intectualismo, oras!

KEMIS VIANA DA SILVA - 1:20 AM

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Sexta-feira, Dezembro 09, 2005


A fonte secou

Interessante. As chuvas voltaram, o clima voltou a ficar aprazível, os campos estão novamente verdinhos e já pode-se viver decentemente na nossa cidade. Mas apesar do aparente clima de fertilidade, tenho notado com preocupação uma coisa um tanto incômoda. Estou sofrendo de uma leve falta de conteúdo ou coisa que o valha. É mais ou menos assim... como se tudo que sempre me moveu - a gana por leitura, por cinema, por cultura, por discussão, enfim, tudo - tivesse se esvaído ou simplesmente não atraíssem mais minha atenção. Estou meio farto de tentar expor minhas opiniões filosóficas, políticas ou seja lá o que mais for, e que sempre me conferiram até um bocado de antipatia. Este meu hábito de tentar aborver os absurdos da vida e catalizá-los por uma espécie de filtro racional de pensamento talvez tenha sido a grande reponsável por hoje eu ter me tornado uma pessoa extremamente autônoma. Hoje, posso observar claramente o quanto a presença de uma pessoa junta de mim (ou a simples possibilidade de que isso aconteça) me causa um certo incômodo. É como um fenômeno interno agindo de forma repulsiva em relação às pessoas que se aproximam de mim. Trocando em miúdos, qualquer papo bobo me enche o saco em dois tempos, e eu prefiro ficar sozinho, nem que seja para ficar falando sozinho. Ou seja, eu só me sinto íntimo comigo mesmo.
O que ocorre é que nesses últimos meses, essa postura me causou estafa. Eu sei que gosto de ficar sozinho, mas devo admitir que quero alguém do meu lado, e quero sim conversar babaquices de vez em quando, rir de um gato sem rabo andando em cima do muro, ficar cinco minutos que sejam na frente da TV vendo bundas rebolando, etc.
Meu potencial crítico ortodoxoultraradical está em baixa. Estou vivendo semanas de burro. Ainda bem.

KEMIS VIANA DA SILVA - 10:35 PM

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Domingo, Dezembro 04, 2005


Que vês?

Ando pensando no seguinte questionamento: qual grau de importância tem o conceito que as pessoas fazem de mim?
Dessa resposta depende a tomada de uma postura que talvez mude meu modo de agir e de conviver com os outros.
Conheço muitas pessoas que diante de uma pergunta como essa, sequer iria titubear, e responderia sem grandes arrodeios que "pouco importa o que os outros pensam". É o velho hábito do qual Voltaire já falava quando escreveu sobre o termo "amor próprio" em seu Dicionário Filosófico.
Algumas pessoas até têm amor próprio, mas insistem em querer exibí-lo, como se fossem jóias de grande valor, causando um sentimento de inveja no público que as observam.
Sem cair na tentação das respostas fáceis, eu prefiro tentar interpretar o questionamento por um ângulo diferente. O modo como as pessoas me tratam, ou como fazem me sentir, provocam em mim um sentimento de dúvida, que me leva sempre a remoer lá dentro uma pergunta que não quer calar: "- É isso que eu represento para vocês?"
E se um dia eu descobrir que realmente aquilo que eu represento para os outros for tudo isso de tão pequeno que costuma aparentar, eu juro que minha forma de pensar e de agir passarão a ser diferentes. Pois enquanto se suspeita de algo ruim, ainda pode pairar a nuvem de dúvida sobre a cabeça. Entretanto, quando a dúvida torna-se certeza, não há mais do que suspeitar e uma das opções é aceitar a realidade. Se um dia eu tirar completamente a dúvida de que eu não represento nada para ninguém, não precisarei nunca mais acretidar em possibilidades vazias, em chances que nunca irão acontecer. E pelo menos terei a certeza de que não precisarei gastar meus neurônios com o cansativo exercício de ter esperança nas coisas.