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Domingo, Fevereiro 26, 2006


Pobres garotos ricos

Nesses tempos de carnaval, um questionamento recorrente costuma me tomar de assalto. Podemos considerar uma dádiva essa alegria espontânea que o brasileiro demonstra ter, sobretudo nas épocas de comemorações, como no Carnaval?
Fui instigado ainda mais nessa dúvida depois que assisti, ao longo desta última semana, a dois filmes que tratam da verdadeira face dos países ditos desenvolvidos. Por coincidência ou não, ambos os filmes também têm uma forte dosagem gay em seus enredos: Billy Elliot e Piscila, a rainha do deserto.
Explico.
Em Billy Elliot, pode-se ver um lado da Grã-Bretanha, eternamente ocultado das capas das revistas ou das telas da TV e dos filmes. Um Reino "Unido" à base da força e que, por este mesmo motivo, ainda guarda fortes marcas da pobreza proletária, constituída nos nefastos e esfumaçados anos de Revolução Industrial, como bem relata a literatura do século XIX, como por exemplo, O capital, de Karl Marx.
O cenário que impera no filme não deixa transparecer, em momento algum, qualquer sinal de glamour em se ser um cidadão britânico. Põe a chão o falso mito da supervalorização do Primeiro Mundo, mostrando, em vez disso, o real estado de pobreza e de total falta de oportunidade que vivem os cidadãos habitantes das pequenas cidades adjacentes à conurbação da grande Londres.
No filme, o desejo de acreditar em si e de investir nos próprios sonhos é constantemente oprimido pela dura realidade de uma vida restrita, em um lugar onde a única forma de renda vem do trabalho nas minas. Na história, está presente ainda o conflito operário-patrão, o homossexualismo na infância e importância dos laços familiares. Aconselhável.
Em Priscila - que sabe-se lá por quê, até hoje é classificado como comédia - o cenário são os longínquos e áridos desertos da Austrália. É bem verdade que a Austrália, apesar da histórica relação com o mundo britânco, adquiriu uma forte e peculiar identidade própria ao longo das décadas que se suscederam à sua total independência da Coroa. Tal fato, inclusive, tem feito da Austrália um lugar internacionalmente conhecido por sua hospitalidade, tornado-a nos últimos anos rota preferencial de milhares de estudantes e turistas dos mais variados países. Porém, lá também há pobreza. O filme mostra claramente que o mesmo mundinho restrito, longe das grandes capitais, persiste em ocorrer naquele país da Oceania. Apesar da inegável riqueza e do progresso econômico que conferiu aos australianos o título de ¿terra das oportunidades¿ dos dias atuais, persiste a máxima de que a superestimação de qualquer país longe da América Latina é um grande engano. Aos que assistirem à Priscila, é importante deixar passar desapercebido o ¿insignificante¿ fato de que boa parte do filme mostra um monte de baitolas atravessando o deserto em um ônibus aos pedaços, e passar a notar a conotação sócio-econômica e geo-política da coisa. A questão da falta de oportunidades novamente se faz aparecer nesta película de 1994. Também aconselho.
Mas e o Canaval? O que tem a ver com esses filmes?
Pode parecer idiotice que o brasileiro médio desligue totalmente seus neurônios nessas épocas carnavalescas e caia de cabeças em cinco dias de intenso delírio que, todos sabem, vão culminar numa monumental ressaca na quarta-feira de cinzas e num rombo na conta corrente, que deixará no vermelho o extrato de nove em cada dez brasileiros. Mas e o estado de espírito, onde fica? Será que aquele cidadão lá do subúbio de Londres ou do distante e seco deserto australianos estariam mais felizes do que nós? Uma das coisas que mais intrigam o estrangeiro que visita o Brasil é justamente essa capacidade de sorrir e celebrar em meio à desgraça e à pobreza. O fator econômico ou mesmo existencial não parece ter a menor relação com o dia-a-dia do brasileiro. Há claras conseqüências negativas em função disso, mas acredito ser preferível manter a saúde mental em bom estado e um sorriso, ainda que desdentado no rosto, a ter que sacrificar sua alegria tentando focar a vida em índices econômicos e no cetiscimo, como fazem os europeus. Ou seja, tá ruim, mas tá bom.

KEMIS VIANA DA SILVA - 2:12 PM

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Segunda-feira, Fevereiro 20, 2006


Never be alone

Bem aventurado todo aquele que é abençoado com a dádiva de viver um grande amor. Na verdade, ele não prescinde sequer de ser grande, basta que exista, que seja consumado. Em meio a livros complicados, dias corridos no trabalho e finais de semana chuvosos, tem me sobrado um tempo, um pouco antes de pegar no sono, para pensar na condição do cidadão que permanece sempre acompanhado de si mesmo e de ninguém mais.
Acho que é chegada a hora de voltar ao caderninho e ao crivo da caneta do consultório psicológico. Há algo definitivamente errado comigo.
Estou quase completamente convencido de que uma estranha placa - invisível aos meus olhos - se faz transparecer às outras pessoas assim que elas se aproximam de mim, ou eu delas. Nela estaria estampada uma imperativa frase do tipo, "se afastem de mim, agora!".
A impressão que tenho é de que pareço ter nascido para monge franciscano, conselheiro sentimental, tesoureiro ou, numa hipótese surreal, para criado-mudo. Tudo, menos para me relacionar com alguém. Isso não.
É interessante como todas as pessoas ditas normais nessa Terra têm cabeça, corpo, membros e algum casinho amoroso, por mais besta e insignificante que seja. Recebem aquelas ligações incidentais no celular, marcam um encontro, até brigam de vez em quando. Mas alguma coisa sempre está acontecendo. Coisas que comigo são tão raras, que não se torna difícil crer na idéia de que eu não sou mais que um jupteriano travestido de terráqueo. Que porra é essa?
Já assisti a centenas de sessões de cinema, sozinho. Já vi a Seleção ganhar duas copas, sozinho. Subi aos Andes e encarei o rigoroso frio das montanhas, e estava sozinho. Nada contra a teoria do sou-mais-eu, ou do antes só do que mal acompanhado. Mas acho que tudo tem um limite.
O doloroso de histórias como estas reside no fato de que a parte que me cabe já está feita. E quando o tal do feedback que se aguarda do lado oposto não vem? Nessas horas, torna-se muito fácil sentir que você não é igual aos outros. Na verdade, você nem sequer chega aos pés dos outros. E como todo deserto que se atravessa sozinho é muito mais tortuoso que os demais, o desolamento chega com a força devastadora de uma tempestade ao coração dos eleitos para assumirem condição de solitários.
Já cansei de me perguntar o que é que eu sou, afinal de contas. Um souvenir, interessante, desde que estacionado na prateleira? Um azulejo, útil, mas feito para se pisar?
Nos últimos meses, adquiri uma mania de ficar impaciente quando as coisas ficam "suspensas" no ar, quando estão implícitas. Quero tudo posto à mesa, bem definidas. E neste exato momento, o que está suspenso é o que eu sou, para ninguém estar nem aí prá mim? Eu não preto, é isso? A resposta é o que menos importa, já não tenho medo de porradas. Só queria ver os pratos limpos, a verdade revelada.
Para os que não me entendem e questionam o porque de eu ser um cara tão calado, sempre soturno, eis aí uma das explicações. Meu silêncio é dedicado a pensar em coisas como estas, que ao meu ver continuam sendo a grande mola-mestre de minha existência: a improvável esperança de que um dia as coisas melhorem, e de que o nefasto gnomo dos amores não-vividos se evada de minha vida definitivamente.

² Justice vs. Simian - Never be alone.mp3

KEMIS VIANA DA SILVA - 1:40 AM

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Quarta-feira, Fevereiro 15, 2006


Vinte e seis

Vinte e seis anos de idade significam menos:

- dinheiro no bolso;
- neurônios para lembrar das coisas do passado;
- cabelos na cabeça;
- ânimo para festas;
- tempo;
- direito de falar besteiras.

E mais:

- percepção;
- controle (mas não auto-controle);
- responsabilidade;
- auto-afirmação;
- medo do futuro; e
- otimismo.

É isso, parabéns para mim!

² Radiohead - Optmistic

KEMIS VIANA DA SILVA - 3:19 AM

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Sábado, Fevereiro 11, 2006


Terceirizando...

Se há um dito popular que, apesar de antiquíssimo, continua mais do que atual, é aquele que diz que se queres algo bem feito, fazes você mesmo. Estou me referindo mais propriamente ao fenômeno da terceirização.
Posso falar de poltrona sobre este assunto, pois parte extremamente relevante de meu cotidiano profissional depende, e muito, de um contrato terceirizado. Boa parte dos meus velhos amigos de Sistemas de Informação, hoje formados (e eu não me formei), trabalham em empresas que prestam serviços de consultoria, ou seja são terceirizados.
Ao menos no meu caso, pude constatar alguns traços característicos da era das terceirizações. Primeiro, que quase sempre prestam um serviço bem aquém daquilo que se pretende ou do que regem seus contratos. Segundo, são um capítulo importantíssimo na explicação do processo de sucateamento de alguns órgãos governamentais que prestam valorosos serviços à nação. Terceiro, são um reflexo direto e um caso emblemático da rotina de contenção quase obsessiva que faz parte da cartilha das administrações atuais, sejam elas públicas ou privadas.
Para quem não conhece a sistemática da coisa, funciona assim. Uma empresa precisa de um serviço. Para contratar empregados orgânicos (ligados à empresa, com carteira assinada) ela precisa pagar uma série de direitos trabalhistas legais e obrigatórios por lei. Logo, os custos com esse cidadão vão lá pro alto. O que fazer. Terceirizar! Elabora-se um contrato com um milhão de cláusulas (algumas, incumpríveis) que garantam o bom funcionamento das atividades que se necessita prestar e o satisfatório cumprimento das obrigações contratuais. Qual a diferença? O custo por empregado.
A terceirizada paga um salário-mixaria para seus empregados e a empresa que contratou os serviços não vai precisar nem se lixar para detalhes trabalhistas, como emissão de olerites, pagamento de INSS, Cofins, uscambau, ou se o cidadão que presta o serviço está com a mãezinha no hospital e precisa de um plano de saúde que banque os custos do tratamento. Ou seja, preocupação zero. É só depositar todo final de mês o valor mensal acordado e referente à prestação dos serviços e pronto.
Até aí, nada de mal, só pontos positivos. Mas e o ditado popular que foi citado lá em cima?
Bem, aí começam os problemas. Pode ser interpretação minha, mas aparentemente há uma palavrinha que diferencia muito um empregado orgânico de um terceirizado: compromisso. O funcionário orgânico, por ser um filho legítimo da empresa em questão, tem todas as prerrogativas que um terceirizado não costuma ter. Tem acesso a cursos e treinamentos de ótima qualidade bancados pela sua empresa-mãe, e que jamais seriam oferecidos a custo-zero para os terceirizados. Resultado: falta de aperfeiçoamento do empregado terceirizado. O empregado orgânico, seja pela iminente possibilidade de ser severamente punido por sua chefia imediata, ou por puro sentimento de laço com a empresa (nem sempre isso ocorre), parece ter mais ¿ digamos assim - carinho ao lidar com os equipamentos ou com as obrigações diárias de seu emprego. Coisa que não se vê no terceirizado.
Volto a dizer, talvez seja só um mero ponto de vista meu, por trabalhar numa área de manutenção. Mas noto que as obrigações que seriam segradas no contrato orgânico deixam de ser cumpridas no terceirizado. Por outro lado, acho absurdo o nível salarial imposto por esta realidade.
Em suma, são dias de mesquinharia. Tudo deve funcionar bem melhor do que antes, e tudo custando metade do que custava antes. É sério, convivo com profissionais muito bons diariamente, gente muito competente (outros nem um pouco), mas continuo não achando justa essa onda de o Estado encontrar meios de se evadir de sua obrigações históricas para com seus cidadãos. Ser neoliberal não é legal. O pop não poupa ninguém.

KEMIS VIANA DA SILVA - 2:39 AM

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Quinta-feira, Fevereiro 02, 2006


Nas ondas da Microeconomia


Cara, e não é que esse negócio de Economia é bem interessante!
Depois de quase quatro anos se arrastando pelo curso, meio sem saber o propósito de toda aquela teoria histórica dos clássicos da economia, estou descobrindo neste período, apertado por força daquela maldita greve engendrada pelas antas das universidades federais, que esta ciência tem sim coisas bem interessantes e aplicáveis à vida real.
Eu lá saberia que custo médio é uma das maneiras de definir o preço da caixinha do leite que todos nós tomamos. Que uma matriz estocástica markoviana teria algo a ver com cerveja (e tem). Taí, na falta de algo interessante para ocupar o tempo, bem que eu poderia me tornar economista de vocação. Que tal eu ficaria vestido de paletó preto tirando uma de comentarista econômico do Jornal da Globo?