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Domingo, Abril 16, 2006


Eu tenho um plano

Às vezes sou acometido por um recorrente pensamento de que espero um dia poder, de algum modo, dar a minha contribuição para a humanidade. Arriscaria chutar que talvez a área do conhecimento que poderia tirar algum proveito de minha carcaça seria a Psicologia, afinal patologias semelhantes à minha de certo que são raras de se encontrar.
Afinal, onde mais se viu, em qualquer outro momento da história o caso de um indivíduo que insiste na idéia de que é invisível ou que, de algum modo, simplesmente parece não existir?
Muitos reduziriam o problema a algo simplório, dizendo tratar-se de uma clássica tempestade em copo d'água. Palavras simples para coisas não tão simples. Só mais uma forma de aumentar uma angústia: não se fazer entender.
Há dias que não são dias em minha pacata vida. E a roda esmagadora das exigências desse mundo por muitas vezes me obrigam a ser o que eu não sou, e acabam por calar um pouco mais o silêncio que me atordoa.
Já falei repetidas vezes que não tenho fé em que algo de muito fantástico me aconteça nessa vida, de modo que a modifique para melhor. Eu mantenho meu pensamento neste sentido, pois tudo o que aconteceu de diferente nesses anos que se arrastam sempre me puseram para mais baixo do que eu já estava. Não creio na máxima determinista de que tudo o que há tem uma causa. Se tudo já está escrito, imagino que tenha sido escrito da forma mais errada possível. Eu sou incompatível.
Por isso, eu tenho um plano. Vou representar ao máximo a mentira dessa vida, até o ponto em que meu coração não mais aguentar. Frágil que ele é, espera-se que exploda ou simplesmente pare de bater, num ataque fulminante de frustração. Nesse meio tempo, espero que o resto das poucas pessoas com quem interajo compreendam o porquê de meu estado sombrio, na maior parte dos dias, e que celebrem, nem que seja falsamente, os poucos milésimos de segundo em que eu demonstrar uma alegria que, por oportuno informo, também será falsa.
Eis aí mais um aspecto a ser estudado pela Psicologia, a estranha capacidade de simular uma vida que não lhe pertence.

KEMIS VIANA DA SILVA - 11:50 PM

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Domingo, Abril 09, 2006


Nas barbas de Schumpeter

Em Economia, fomos bem recentemente apresentados a Joseph Schumpeter, um economista austríaco que certo dia resolveu mudar, e pensar tudo que ele queria pensar, mas a seu modo.
Então, pensou de uma maneira bem mais inteligente e, acima de tudo, realista, esta velha condição do capital e suas pseudo-crises, com tendências decrescentes da taxa de lucro e da mais-valia, blá, blá, blá...
A parada é a seguinte, o austríaco viu a coisa por um prisma bem diferente: quem disse que é o consumidor quem manda nesse terreiro do mercado de produção? Não senhor! É o contrário, quem põe as cartas na mesa e determina o quanto deve ser produzido ou a que preço de escala sairá o produto é o próprio mercado. Mas não aquele mercado cabeça-dinossauro, até então vigente, e sim um novo mercado, que destrói velhos conceitos, ao mesmo tempo que cria novas tendências (a destruição criadora). Esse novo mercado seria representado por um cara descolado, eficiente, peitudo e, antes de mais nada, empreendedor. Ele quem iria determinar o que passaria a ser necessidade. Um liquidificador, uma faca de mesa elétrica, um lindo aparelho-de-tosar-mechas-de-puddles. E pronto! Estava aí a nova fórmula. O capitalismo contemporâneo bem melhor representado e entendível.
Com um mercado inovador, criando (e vendendo) novos conceitos a todo vapor, logicamente era necessária a existência de um fiador, um credor que desse condições financeiras para tornar concretas todas essas idéias. Surge então o capital bancário, o advento do empréstimo, do financiamento, e todas essas tralhas que hoje soam como pesadelos para nós, pobres mortais.
Mas resumindo, o que isso tudo tem a ver com o cidadão típico? Oras, tudo!
É por esse processo acima, que hoje eu não vivo sem meu computador, sem meu maravilhoso iPod de 30 GB, que toca mp3 e vídeos, e que, de quebra, aind mostra as minhas fotos da viagem ao Peru, que eu tirei com minha câmera digital de 4.1 megapixels (outra necessidade criada). Enfim, se Marx hoje estivesse vivo, eu simplesmente diria que é assim que o velho e batido capitalismo ainda consegue sobreviver.
Até mais ver, vou prá balada!

KEMIS VIANA DA SILVA - 1:16 AM

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Sexta-feira, Abril 07, 2006


Falsas árvores de plástico

Me deito. Durmo. Levanto no meio da noite para ir ao banheiro. Acordo, com meu habitual mal humor matinal.
Banho, roupa e embarco para o trabalho. Lá, passo todo o meu dia, oprimido pela rigidez de uma organização que só exige. Entre uma pressão e outra, lido com os cansativos assuntos da rotina burocrática, típica da gestão pública, e algumas indisposições com os colegas de trabalho, que nem sempre pensam igual à gente. Entre uma chateação e outra, passa o dia e o expediente acaba. Vou para casa e, já morto, tomo um banho rápido, enquanto penso no que virá pela frente.
Depois da janta, corro para a faculdade que, nos últimos dias, anda extremamente desinteressante. Some-se a isso o fato de eu estar já muito esgotado fisicamente, e me vem um sono incontrolável. Cochlilo as aulas quase inteiras. Termina a aula, e eu penso: pronto, estou livre para aproveitar o que me resta do dia. Piada sem graça.
Já são mais de dez da noite. O dia já deu o que tinha para dar, não há mais nada a fazer, a não ser ir para cama, dormir e começar a mesma rotina do início deste monólogo.
Esse tem sido meu intinerário: viver por viver, sem esperar pelo dia seguinte, apesar de saber que ele fatalmente virá. E conviver todo o santo dia com a maldita esperança utópica de que, a qualquer minuto, uma turbina de avião caia na minha cama no meio da noite, para que eu possa ao menos voltar a vivenciar algo que me faça sentir o sangue correndo nas veias. Do jeito que está, está tudo morto. Nada tem sabor, nada dá tesão. Ou melhor, dá, mas eu não posso pegar.
Não há nada mais desgastante que uma frustração a cada vinte minutos, entre um cafezinho e outro.
Anteontem, minha mãe me contou que um meio-primo dela se suicidou. Um tiro no peito, fulminante. O cara não tinha retrospecto de depressão ou qualquer coisa do tipo. O episódio reavivou meus pensamentos a respeito do assunto: sempre achei que para se suicidar tem que ser muito macho. É uma decisão que não tem volta e que diz muito sobre o que somos.
É sempre bom refletir sobre o que se passa pela cabeça do homem, e no quanto pesa o fardo do dia-a-dia. Ser humano é foda.
Espero não chegar aos extremos, como fez o meio-primo de minha mãe, mas por enquanto, o que posso dizer é que estou desapontado com tudo.
Se viver é essa de ficar chupando uma pedra de gelo sem gosto nenhum e dando chute contra a parede, queria reincarnar ainda hoje na pele de um cachorro. Pelo menos eles não pagam impostos.