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Quarta-feira, Agosto 30, 2006


Um corpo que cai

Apenas o resultado de mais uma noite solitária e uma cabeça pesada de pensamentos os mais indignos.
Hoje cedo, acordei de um salto, com meu coração palpitando, assim que despertei de um nefasto pesadelo.
Sonhava eu que um grupo de pelo menos 150 paraquedistas fazia um salto coletivo sobre Rio Branco, para compor no ar uma bela forma geométrica, com várias cores diferentes e fogos de artifício (??). Lá pela metade do salto, quando já se esperava que os paraquedas começassem a se abrir, eles não abriaram. E aí começava o bizarro espetáculo, em que diante, de meus olhos, assistia a uma sucessão de seres humanos se espatifando ao chão, como numa verdadeira chuva de gente. Lembro que após as quedas, os poucos que sobreviviam gritavam de dor e desesperedo ao verem que tinham seus corpos dilacerados e deformados por conta do forte impacto com o solo. A carnificina que se estabelecia diante do campo de guerra que se formava era um pandemômio total. O último estágio do inferno de Dante.
Lembro bem de uma cena no pesadelo que ficou bem marcada, quando via um rapaz de boa aparência praticamente fincando-se ao chão assim que caía literalmente de pé. Sua feição de dor e desespero aumentava lentamente, à medida que ia se dando conta do sangue que começava a minar de suas pernas, manchando lentamente a calça branca de material sintética que vestia. Num instante, suas pernas começavam a se desmontar diante de seus olhos. Vi pedacinhos de gente espalhados pelo gramado, e quando o pesadelo chegou ao estágio máximo de seu terror, me vi acordando, assustado, e com aquela bestial imagem ainda viva em minha mente.
Fiquei tendo comigo mesmo à beira da cama, enquanto tentava me tranquilizar: que bem que eu desejo à humanidade, não?
São dias difíceis.

KEMIS VIANA DA SILVA - 2:11 AM

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Sábado, Agosto 19, 2006


Mais uma na playlist das músicas que parecem terem sido moldadas baseando-se na sua vida...

Lanterna Dos Afogados
Os Paralamas do Sucesso

Quando está escuro
E ninguém te ouve
Quando chega a noite
E você pode chorar

Há uma luz no túnel
Dos desesperados
Há um cais de porto
Pra quem precisa chegar

Eu estou na Lanterna dos Afogados
Eu estou te esperando
Vê se não vai demorar

Uma noite longa
Pra uma vida curta
Mas já não me importa
Basta poder te ajudar

E são tantas marcas
Que já fazem parte
Do que eu sou agora
Mas ainda sei me virar

Eu tou na Lanterna dos Afogados
Eu tô te esperando
Vê se não vai demorar

KEMIS VIANA DA SILVA - 1:24 PM

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Quinta-feira, Agosto 17, 2006


Cavaleiro do Apocalipse

E eis que se ergue diante dos muitos que ali se aglomeram e começa a entoar, de peito cheio, como quem prega.

- Pergunto. Há de perecer aquele que mente?! De fato se engana quem pensa ser indigno todo aquele que usa da mentira para chegar a seus fins. A mentira é inerente ao ser humano, este, que por extensão, já é uma obra inacabada e um grande poço de sentimentos, os mais desonestos. Isto dito, e considerando o quão arbitrário é o mundo, torna-se improvável afirmar que perecerá de alguma forma o que mente. Quando muito será recompensado com a satisfação de quem comete um delito.

E continuo ainda...estaria certo aquele que dá crédito ao ser humano? Duvido muito! Devo dizer que poucas obras da natureza merecem tão pouco respeito quanto esta erva daninha chamada ser humano. Ele trai, inclusive a si próprio. Usa dos artfícios mais nefastos e deteriora a integridade de seu semelhante, também homem. Sofre de uma sede insaciável de autodestruição, que o leva a subverter a própria lógica racional, cometendo, em último grau, os malefícios que aos poucos corroem à sua própria espécie.

Mas questiono por fim. Há algum futuro para uma humanidade destas caracteríticas?
Oras, como em toda injustiça já cometida nesta e em outras vidas, aqui também haverá de ocorrer uma forma de julgamento mais digna. A natureza expurga, sem piedade, tudo aquilo que ela julga não prestar. É neste instante, que a fumaça que toma as cidades, a mentira e a promiscuidade de toda sorte e que encharca nossos meios, serão lavados deste mundo. E somente restará o nada, dando início a mais uma grande oportunidade de errarmos novamente. Tenho dito.

Subiu no próximo ônibus e se foi.

KEMIS VIANA DA SILVA - 1:47 AM

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Sábado, Agosto 12, 2006


Nada de novo na

Lavar carro ou moto para mim sempre teve o mesmo efeito de uma terapia. Agora a pouco, enquanto lavava o Celta (sem muita destreza, diga-se de passagem), comecei a pensar, assim do nada, no quanto as pessoas são idiotas.
Não que importe quem seja, mas, neste caso específico, estava pensando no meu pai, ou sei lá, numa coisa um pouco mais complexa, como a relação dele com minha mãe. Na verdade, acho que estava era pensando na trajetória histórica da nossa vida como família. Ou seja, na legendária história que guarda a antiga casa número 439, da Travessa Acre, Bairro Aeroporto Velho.
É aquela coisa, os anos passam e seus ídolos e falsas impressões vão caindo por terra, um a um. Acho que por isso, de uns tempos pra cá, eu pude notar o grande vazio que permeia nossa vida em família. Definitivamente, nessa casa há algo que não é normal. Ninguém (exceto eu) gosta de música, ninguém (exceto eu) gosta de sair, ninguém (exceto eu) se liga em futebol, etc.
É bem verdade, que a coisa começou a ficar meio estranha a partir do momento em que eu comecei a adquirir um pouco de espírito crítico, quando de fato deixei de ser uma criança inocente e minha alegria infantil se foi junto com os bons anos do Instituto São José. A partir daí, me tornei mais enjoado, introspectivo e pouco dado a conversa dentro do ambiente doméstico.
Comecei a ver como a vidinha da periferia em nada tinha a ver com aquilo que eu vislumbrava. Foi neste instante que deixei de ter amigos no bairro, e hoje mal conheço o pessoal que um dia jogou bola comigo na rua. Mas isto não me impede de pensar nos poucos instantes dignos de serem rememorados e que fizeram parte da minha de garoto boboca.
Me lembro bem do jeito engraçado da minha falecida avó paterna falar, quando, nas raras vezes em que a visitava, se punha a me analisar de ponta-cabeça, dizendo:
- Espere, e isso ainda num aprendeu a comer direito. não?! Valha-me Deus!
Me lembro do tempo em que deitava a cabeça no colo da minha outra avó, essa ainda viva, e pedia para ela me fazer cafuné para causar ciúmes no meu primo mais novo.
E também me lembro do tempo em que eu não tinha vergonha de conversar besteira no colo do meu pai, que na época parecia não dar tanto desgosto a mim e minha mãe com os vícios por bebida que hoje tem.
E a casa 439? As paredes já mudaram tanto de lugar que nem saberia dizer onde ficava o meu quarto antigamente. Mas a despeito de tudo isso, ainda resta mais um monte de hábitos que continuam mais do que vivos, uma série deles dignos de serem urgentemente mudados, para que essa, que ainda se intitula uma família, continue firme por mais alguns bons anos.
A propósito, o atual número da minha casa é 281.

KEMIS VIANA DA SILVA - 3:09 PM

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Domingo, Agosto 06, 2006


Ó o sangue!

Estive hoje à tarde na cerimônia de reinauguração do histórico "Mercado Velho", no centro da cidade. Uma multidão de pessoas prestigiou o evento que, como tantos outros ao longo do governo de Jorge Viana, serviu para mostrar a franca ascendência desse espírito bem recentemente incorporado pelo povo daqui. A cada nova obra que é lançada (e eu já estive em algumas), pode-se notar o interesse diferenciado das pessoas que comparecem. Digo diferenciado porque sou contemporâneo de uma época em que Rio Branco ainda se destacava por uma política provincial, onde um singelo evento, como uma inauguração de um espaço público, era freqüentado pelo povo mais por curiosidade do que propriamente pelo orgulho de se sentir cidadão, como pode ser observado nos dias de hoje.
É dificil tentar explicar dessa forma as mudanças que tenho assistido no Estado nos últimos anos. Não sei se estou sendo claro ou convincente o suficiente, mas que hoje está tudo bem diferente está. Pode parecer um discurso de petista inflamado, ou de mais um fanático infectado pela publicidade governista em defesa de um acreanismo ufanista. Mas a verdade é que não tenho partido, assim como não seria inocente o bastante para vestir a camisa de qualquer linha política, pois bem sei das artimanhas nada cristãs que esse meio exige para se prosperar debaixo de suas asas. Apenas relato de maneira a mais realista possível essa mudança na postura política acreana recente, assim como o horizonte bem mais promissor que este nos projeta para o futuro. A cara do Acre é outra. Até esteticamente isso é verdade. Que o diga as milhares de gatas que estava hoje na inauguração.
Fato destacável do evento, foi a apresentação da Ópera Aquiri. Para os menos conhecedores do Acre, poderia soar estranho. Uma ópera no Acre? Mas é verdade, e de muitíssimo bom gosto, diga-se de passagem. E entre o acorde de um celo e outro, para não perder o hábito, eis que me toma de assalto um curioso questionamento, resultado de minha típica crise existencial.
Como posso eu, que tenho a cada dia testemunhado a franca melhora no padrão de vida desta cidade, não conseguir me adaptar ao meio e poder usufruir da minha tão sonhada paz de espírito?
Na verdade, tais circunstâncias acabam servindo apenas como uma forma de acrescentar um pouco mais a minha frustração quanto ao rumo que minha vida tomou. Estou decepcionado com minha incapacidade de fazer minha vida prestar em meio a esta situação supostamente favorável.
E enquanto me arrepiava ao ouvir a doce sonoridade do coral vestido de preto (e também repleto de meninas lindas), pensei na minha bizarra condição de cidadão que assumiu o papel de estranho no paraíso.